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[ n. 197/fevereiro 2005 ]

Pág. 02

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:: OPNIÃO ::

Jacques Derrida passado a limpo
Marcos Siscar

Poucos intelectuais tiveram impacto em áreas tão diversas quanto o franco-argelino Jacques Derrida, falecido em 9 de outubro último de câncer pancreático. Nascido em 1930, professor de filosofia, produziu trabalhos importantes também nas áreas de literatura, de política, de artes (teatro, pintura, desenho, arquitetura), de lingüística, de antropologia, nas ciências humanas de modo geral. Ao contrário do que se convencionou tratar como método, sobretudo em razão de uma primeira leitura norte-americana, a “desconstrução” derridiana é antes de mais nada uma abordagem atenciosa (minuciosa, rigorosa) para com a natureza do “objeto” do conhecimento, disposta a reconhecer as questões que nele se elaboram e suas conseqüências dentro do campo mais geral (filosófico, histórico, teórico) no qual está inscrito.

Nesse sentido, nunca é demais lembrar que praticamente todas as obras de Derrida são trabalhos de leitura de textos e não tratados sistemáticos sobre temas gerais. Para o autor, a retórica (texto, língua, idioma) não é um dado acidental do pensamento lógico. Livros como Da Gramatologia (1967), Glas (1974), Cartão Postal (1980), Espectros de Marx (1993), Vadios (2003), para citar apenas alguns exemplos de uma obra que conta com várias dezenas de títulos, são antes de mais nada análises minuciosas de textos de Rousseau, de Lèvy-Strauss, de Freud, de Lacan, de Genet, de Marx, de Kant, entre outros.

No momento em que a morte é pretexto para se passar a limpo uma obra provocadora – para quem a rasura é um traço constitutivo da identidade –, é preciso não deixar em segundo plano o fato de que esse rigor de análise sempre se caracterizou pela sua audácia. Ao questionar os lugares já consagrados de autores e textos da tradição, as releituras do passado e os diálogos com o contemporâneo lhe renderam admirações e resistências as mais diversas por todo o mundo. Por questionar um certo tipo de humanismo cristalizado das ciências humanas do século XX, a idéia segundo a qual todo conhecimento é determinado (filosoficamente, historicamente) foi freqüentemente interpretada, de modo apressado, como um convite à indeterminação ou à a-historicidade geral do pensamento. A demonstração de que a “realidade” é efeito do discurso que a enuncia (efeito que tem, evidentemente, conseqüências empíricas muitas vezes dramáticas), foi confundida com a asserção segundo a qual não existe realidade empírica. Debate infrutífero, quando desinformado, isto é, apartado da leitura dos textos do autor, a idéia entretanto interfere decisivamente no lugar ocupado pela obra de Derrida no Brasil.

Pode-se dizer que o prestígio mundial das idéias do autor tem tido o efeito até certo ponto perverso quer seja de colocá-las sob suspeita, quer seja de supor esquadrinhada uma obra ainda pouco conhecida em seus gestos específicos. Em ambos os casos, opera-se uma certa rasura do pensamento. No Brasil, sua leitura começou relativamente cedo, no início dos anos de 1970, em departamentos de Letras do Rio de Janeiro. Apesar das ilhas de leitura que se formaram a partir de então, por exemplo nos estudos da Tradução, as quatro décadas de produção intensa do autor ainda são terras praticamente virgens em termos de discussão consistente. A exemplo de uma confusa leitura formalista (disposta a se apropriar da aporia para proveito estético) e de uma também confusa associação com o culturalismo (justificando sectarismos ideológicos que nada têm a ver com a problematização derridiana das identidades), a obra do filósofo no Brasil é julgada freqüentemente de orelhada, servindo de fato, em muitos casos (pela sua suposta inconsistência e/ou poder de ameaça), para confirmar o lugar bem assentado do mau humor contra as idéias ditas “importadas”.

Se o clima antiintelectualista comum na vida acadêmica brasileira não atinge exclusivamente a obra de Derrida, cujo pensamento político é praticamente desconhecido, o modo pelo qual esta tem lugar entre nós comporta uma interessante advertência no que diz respeito à necessidade de pensar a nossa situação e as nossas particularidades, inclusive intelectuais, sem perder de vista aquilo que reconhecemos como válido na ordem do pensamento.

Marcos Siscar é poeta, crítico, tradutor e professor de Teoria da Literatura no Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (Ibilce) da UNESP, campus de São José do Rio Preto. Principais livros publicados: A rosa das línguas, tradução e apresentação de Michel Deguy, com P. Glenadel (São Paulo/RJ: Cosac & Naify/7 Letras, 2004); Metade da arte, poemas (São Paulo/RJ: Cosac & Naify/7 Letras, 2003); No se dice, poemas traduzidos por A. Cristobo (Buenos Aires: Tse-Tse, 2003); Jacques Derrida: Rhétorique et Philosophie (Paris: L’Harmattan, 1998); e Os amores amarelos, tradução e apresentação de Tristan Corbière (São Paulo, 1996).

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