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[ n. 195/dezembro 2004 ]

Pág. 11

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BIOLOGIA
Padrão de comportamento
Movimento instintivo de dispersão de larvas de moscas auxilia pesquisa em robótica


A análise do movimento instintivo de dispersão das larvas de moscas-varejeiras, pós-fase alimentar, tem sido utilizada para desvendar crimes ao determinar a idade de um cadáver, já que os insetos são os primeiros a rondar o local e depositar os ovos. Agora, estes mesmos estudos estão sendo aplicados no desenvolvimento da robótica, mais especificamente na autonomia de deslocamentos, sem controle do homem.

Baseado na análise do padrão de comportamento instintivo para a sua sobrevivência, da fase pós-alimentar até a formação da pupa, um grupo de pesquisadores da UNESP e Unicamp está trabalhando com o objetivo de dar autonomia de decisão a pequenos robôs, sem que eles esbarrem em obstáculos, a partir da própria experiência de navegação dos mesmos.

A pesquisa pode representar os primeiros passos para que, no futuro, os robôs possam tomar as suas próprias decisões a partir de um processo de auto-aprendizagem. O doutorando do Instituto de Biociências da UNESP, campus de Rio Claro, o biólogo Leonardo Gomes, autor do trabalho, observou o padrão de comportamento, em laboratório, de dispersão de larvas de quatro espécies de moscas-varejeiras em diferentes situações.

No experimento, mais de 1.200 larvas foram colocadas em uma arena com alimento em seu centro. Depois de se alimentar, abandonavam os substratos alimentares e tomavam diferentes direções possíveis. Cada pupa formada foi pesada e teve medida a sua distância em relação ao centro, a profundidade atingida, localização e identificados o sexo e a espécie gerada. “Tudo para conseguirmos os dados da distribuição espacial de todos os indivíduos como acontece na natureza”, explica Gomes.

Os dados foram passados para um software já existente, chamado autômatos celulares, utilizado para prever, por exemplo, eventos na natureza como o nível de dispersão de petróleo em função de derramamento em desastres com navios petroleiros ou qualquer outro evento em estudo. “É uma ferramenta matemática poderosa, um sistema dinâmico com tempo, espaço e estado interagindo como se fossem células”, acrescenta o biólogo Cláudio José Von Zuben, professor e orientador do estudo.

Gomes explica que ao serem passadas as informações coletadas, durante a análise de dispersão, para o sistema de navegação de robôs, eles poderão andar inspirados no comportamento das larvas. “Antes, os robôs caminhavam de acordo com um controle humano preestabelecido, hoje, se tiver um obstáculo ele vai tomar outra direção, se houver algo que compete com ele, vai desviar”, observa Gomes.

A conclusão é que as larvas possuem um processo auto-organizado semelhante a outros organismos, como as formigas, como foi verificado em um estudo feito no MIT (Massachusetts Institute of Tecnology) nos EUA. A experiência com os robôs está sendo feita em parceria com a Unicamp, onde um outro trabalho vem sendo realizado, baseado no comportamento do sistema imunológico do corpo humano. Neste caso, o robô é o anticorpo que se movimenta em uma espécie de labirinto sem qualquer controle humano, em busca de um outro objeto que representa o antígeno causador da doença.

Segundo o coordenador do Laboratório de Computação Bioinspirada da Unicamp, Fernando Von Zuben, o robô deve aprender a partir de sua própria experiência de navegação. Para tanto, deve memorizar o que faz e reconhecer quando algum padrão sensorial se repete ou então nunca foi experimentado antes. “O objetivo maior do trabalho é realizar essas três atividades da melhor forma possível, sendo que processos de larvas em dispersão estão fornecendo subsídios para isso”, completou.


IMPORTÂNCIA DAS MOSCAS
Larvas podem determinar data de crimes

O estudo de dispersão das larvas desenvolvido pelos pesquisadores do Instituto de Biociências da UNESP, campus de Rio Claro, pode também ajudar os peritos a desvendar crimes. Trata-se da entomologia forense. Como as moscas-varejeiras são as primeiras a pousarem e depositarem ovos nos cadáveres, pela análise do tempo do seu ciclo reprodutivo do estágio larval até o inseto adulto dá para se determinar o dia e, em alguns casos, a hora em que ocorreu a morte. A partir de uma análise toxicológica das larvas pode-se também identificar se a causa mortis foi por overdose, envenenamento, se o corpo teria sido enterrado ou submerso.

Como em dias quentes o ciclo de reprodução é mais rápido, em relação aos dias mais frios, a temperatura e a umidade são importantes para se determinar, com maior precisão, o dia correto do óbito. Entre a eclosão das larvas, a sua transformação em pupa, até emergir um inseto adulto, pode levar até 15 dias. Já a mosca sobrevive em torno de 20 a 30 dias.

Apesar desta técnica de investigação ter sido descoberta há muito tempo, sendo o primeiro trabalho datado de 1850, além de ser bastante utilizada por peritos em outros países, no Brasil, ela é ainda praticamente desconhecida. “Um dos nossos trabalhos é divulgar e esclarecer os institutos de criminalística sobre esta técnica”, diz Cláudio Von Zuben.

O pesquisador conta que esta tecnologia forense, porém, já ajudou a desvendar alguns casos no Brasil, como o de uma criança que foi encontrada morta em um canavial em Piracicaba há alguns anos. A Secretaria de Segurança da cidade de Caxias, no Rio de Janeiro, também adota a técnica em suas investigações. “Tenho comparecido em vários eventos falando sobre a evolução desta tecnologia, tanto para investigadores como para juízes, para que cada vez mais pessoas a utilizem”, concluiu.


Julio Zanella

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