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PINTURA
DE CASARIOS
Pesquisa retoma a arte do Grupo Tapir nas décadas de 1960
a 1980
Entre os anos 1960 e 1980, quando as artes plásticas
nacionais eram invadidas por diversos movimentos de vanguarda, como
o concretismo, a op art e o neoconcretismo, cinco artistas paulistas
se organizaram para formar o Grupo Tapir, que tinha como principal
tema de sua pintura os casarios, seqüências de casas
geminadas muito presentes no estilo arquitetônico cultural
brasileiro. O estudo da vida e da obra desse Grupo foi o tema da
pesquisa O Grupo Tapir e a pintura de casarios (1960-1980), de Fátima
Regina Sans Martini, dissertação de mestrado apresentada
ao Instituto de Artes da UNESP, campus de São Paulo.
Para conhecer melhor o trabalho de Giancarlo Zorlini (1931), Glycerio
Geraldo Carnelosso (1921), João Simeone (1907-1969), José
Procópio de Moraes (1929) e Omar Pellegatta (1925-2000),
integrantes do Grupo, o trabalho busca, inicialmente, conhecer melhor
alguns dos mestres do quinteto, como Mário Zanini (1907-1971),
Ottone Zorlini (1891-1967), pai de Giancarlo, e Ângelo Simeone
(1899-1974), irmão de João, todos artistas de origem
ítalo-brasileira que trabalhavam num estúdio situado
no célebre Palacete Santa Helena. Eles, a partir dos anos
1960, orientavam e acompanhavam os pintores do Grupo Tapir em viagens
pelos arredores da Capital, pelo Interior de São Paulo e
pelas cidades históricas de Minas Gerais e Rio de Janeiro.
O grupo pintava paisagens, casas, monumentos, igrejas e ruas históricas,
dando, segundo Fátima, especial ênfase a jardins, curvas
de rios e aos subúrbios, com suas casas singelas. Essa produção
de casarios do Grupo Tapir ocupou, ao lado de outros artistas do
gênero, como Ianelli, Volpi e Takaoka, considerável
espaço nas principais galerias e leilões paulistas
no período de 1960 a 1980.
O crítico de arte Quirino da Silva, em artigo publicado no
jornal Diário da Noite, em 1968, batizou o grupo com o nome
de Tapir, argumentando que, assim como esse animal era um símbolo
da fauna brasileira, a arquitetura colonial e as paisagens nacionais
pintadas eram também representantes significativos da cultura
nacional. A denominação ganhou mais força com
a exposição inaugural do Grupo, ocorrida em 26 de
março de 1968, na Galeria Francesco Domingo, em São
Paulo.
Houve logo sucesso de crítica e público, além
da posterior agregação de novos pintores com características
temáticas e estilísticas semelhantes que ajudaram
a difundir principalmente a pintura de casarios. Assim, o Tapir
permaneceu ativo até 1978, gravando seu nome na história
da pintura nacional como um grupo que soube, segundo Fátima,
trabalhar com afinco e persistência, no encalço
de suas próprias resoluções artísticas.
A pesquisadora dedicou-se também a analisar quadros dos artistas
do Grupo Tapir, verificando seus pontos comuns em termos de uso
de perspectiva, pontos de vista, recortes e planos. Rua de Ouro
Preto, de Zorlini, de 1976, por exemplo, é uma composição
bem estruturada que apresenta, segundo a pesquisadora, frescor
e suavidade no emprego das cores, assim como emprego
mínimo das formas e detalhes distribuídos entre os
planos.
Igreja da Nossa Senhora da Conceição, de 1972, de
Carnelosso, pintada em Ouro Preto, revela grande domínio
no uso da técnica de claros e escuros. As pinceladas
acompanham o caminho e o telhado das casas no plano da frente. O
casario fortemente colorido e sombreado se destaca frente às
pequenas casas iluminadas ao fundo, explica Fátima.
Simeone, em Rua de Parati, de 1968, organiza um casario com
o mínimo de detalhes e tonalidades. Os tons de
azul apenas pincelados se transformam em janelas. As portas em marrom
se destacam nas paredes brancas. A massa verde da árvore
atrai os raios dourados, que por alguns momentos batem nas paredes
e no chão, diz a pesquisadora.
Pintura de 1964, Casario de Parati, de Procópio, apresenta
uma das principais características do artista: portas e janelas
quase sempre fechadas. O movimento entre os tons de laranja,
verde e
violeta reforça os contrastes formais. Emocionalmente o colorido
permanece tenso. O conteúdo expressivo adquire uma espiritualidade
inesperada, afirma a autora do trabalho.
Pellegata, em Igreja Nossa Senhora das Mercês, da década
de 1970, mostra um trabalho de criação que imprime
ritmo na composição pictórica através
da distribuição repetida e harmoniosa à direita
e à esquerda das linhas horizontais, verticais, inclinadas
e curvas.
Fátima estuda ainda, no resgate das pinturas dos integrantes
do Grupo Tapir, as conotações simbólicas e
psicológicas vinculadas à pintura de casarios, mostrando,
como ela aponta, que se trata de uma produção
que supera o tempo e ultrapassa o tema. Nesse sentido, através
da imagem dos casarios antigos, os sonhos, pensamentos e lembranças
se integram à idéia de repouso e refúgio,
no qual as justaposições das casas estabelecem
o círculo sagrado de pedras e as torres lançadas
contra o horizonte fornecem a morada dos deuses. Nessa leitura,
os casarios do Grupo Tapir surgem como indicativos de proteção,
abrigo e conforto num mundo pleno de conflitos em todas as esferas.
Oscar DAmbrosio
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