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[ n. 193/outubro 2004 ]

 Págs. 8/9

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índice Jornal ]

:: REPORTAGEM DE CAPA ::

O benefício dos cogumelos

Pesquisa financiada pela Fapesp e coordenada por docente da Faculdade de Ciências Agronômicas de Botucatu demonstra propriedades nutricionais, imunológicas anticarcinogênicas e antimutagênicas do cogumelo-do-sol e do shiitake.

 

Julio Zanella

O estudo da tecnologia de cultivo, da caracterização bioquímica e dos efeitos protetores das espécies de cogumelos comestíveis e considerados medicinais, como o Agaricus blazei, conhecido como “cogumelo-do-sol”, e Lentinula edodes, o shiitake, foi o objetivo de pesquisa financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e coordenada pelo professor livre-docente voluntário da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da UNESP, campus de Botucatu, Augusto Ferreira da Eira. “Trata-se de microrganismos muito ricos, seja por suas propriedades nutricionais, imunológicas, anticarcinogênicas e antimutagênicas, seja por sua utilização na culinária”, informa o docente.

O projeto, iniciado em 1999, concluiu que o cogumelo-do-sol apresenta propriedades medicinais preventivas (protetoras), além de funcionar como poderoso coadjuvante no tratamento da hepatite C, na medida em que melhora o apetite dos pacientes, que costumam emagrecer muito durante o tratamento da doença. Também foi possível verificar que ele diminui os efeitos colaterais dos medicamentos antivirais, como fadiga e dores musculares. Foi comprovado ainda que é uma excelente fonte de proteínas e vitaminas, já que 100 gramas de cogumelo desidratado contêm 35 gramas de proteínas, além de ferro, fósforo, cálcio e vitaminas do complexo B. “Também verificamos que muitas das informações divulgadas em diversas propagandas na televisão, em rádios e revistas sobre o cogumelo-do-sol ligadas à diminuição de tumores são obtidas com o extrato concentrado do fungo – e não com comprimidos e chás, como é divulgado”, afirma Eiras.

Na FCA da UNESP, os estudos com os cogumelos começaram em 1986, com a criação do Módulo de Cogumelos, que proporcionou a infra-estrutura necessária para a realização do projeto temático da Fapesp, que tinha como proposta inicial conhecer o que havia de verdade e mito relacionado às propriedades de algumas espécies, cujos nomes estavam associados a efeitos terapêuticos os mais variados, como a cura do câncer.

Com esse objetivo, foram integrados especialistas de imunologia, patologia, radiologia, bioquímica e agronomia, num total de 80 pesquisadores, distribuídos em sete equipes, de instituições como a FCA, a Faculdade de Medicina (FM) e o Instituto de Biociências (IB), todos no campus da UNESP de Botucatu, Esalq/USP, UFSCar e Universidade Estadual de Londrina (Uel).

Inicialmente, houve a preocupação de estudar, de fato, o cogumelo A. blazei. Foram então escolhidas para análise linhagens dos Estados de São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Pesquisadores brasileiros e de Israel, liderados por Solomon Wasser, da Universidade de Haifa, concluíram, em estudo publicado, em 2003, no International Journal of Medicinal Mushrooms, que elas devem ser identificadas de forma diferenciada, como uma nova espécie (Agaricus brasiliensis), porque são diferentes das encontradas na Flórida, EUA.

Além dessa questão metodológica, estudos coordenados pela pesquisadora Lúcia Regina Ribeiro, do Departamento de Patologia da FM, avaliaram a eficiência em ratos dos extratos aquosos, como sucos e chás, do cogumelo-do-sol e do shiitake contra mutações induzidas por drogas (efeitos quimioprotetores) e outros danos celulares. Os experimentos demonstraram que, de fato, eles protegem contra alterações genéticas das células. “Quando o cogumelo foi moído e incorporado à ração, o benefício nos ratos foi a redução do aparecimento de focos tumorais”, informa Eira.

Na área de Imunologia, experimentos realizados pela equipe coordenada pelo docente Ramon Kaneno, do IB, concluíram que extratos aquosos do cogumelo-do-sol obtidos por fervura diminuíram a sobrevida de camundongos portadores de tumores cancerígenos em relação aos tratamentos com sucos, provavelmente por efeitos hepatotóxicos. Eira diz que os benefícios do cogumelo-do-sol em relação a tumores podem ser observados apenas quando são utilizadas frações concentradas do cogumelo-do-sol, nas quais os princípios ativos encontram-se mais fortemente presentes. “Em frações solúveis em oxalato de amônia (extrato AFT), por exemplo, os tumores, de fato, não regrediram, mas estagnaram”, comenta.

Foi verificado ainda que o cogumelo-do-sol tem efeito na neutralização das moléculas ligadas a processos celulares degenerativos (os radicais livres) e funciona como auxiliar importante em alguns tipos de tratamento, como a quimioterapia, porque elimina, em parte, os efeitos colaterais.

Especificamente quanto à radioterapia, a equipe coordenada pela pesquisadora da FM Alzira Teruio Yida-Sakati mostrou que sucos e chás de algumas linhagens são modificadoras das radiorespostas. Se ingeridos após a radiação, os chás não interferem no tratamento, mas se administrados antes da radiação, podem tornar o indivíduo resistente à radioterapia – o que reduz o efeito do tratamento. Em relação aos sucos, eles demonstraram efeito radioprotetor tanto antes quanto depois da sessão de radiação. “Portanto, a ingestão de chás deve ser evitada antes da radiação e a de sucos, antes ou depois”, conclui Eira.

Orientanda de Carlos Antônio Caramori, da FM, a mestranda Milena Costa Menezes avaliou a influência da suplementação dietética com o cogumelo-do-sol na evolução do estado nutricional e do tratamento de hepatite C em pacientes do ambulatório do Hospital de Clínicas da Faculdade. Pesquisa
realizada durante seis meses apontou que o grupo de portadores da doença que consumiu uma mistura de seis diferentes linhagens em forma de pó apresentou melhora em todos os efeitos colaterais relatados em comparação com o grupo de controle após o primeiro mês de tratamento medicamentoso.

As pesquisas desenvolvidas no projeto também estão sendo utilizadas para prestar assessoria técnica a produtores, principalmente do cogumelo-do-sol, em cidades paulistas como Sorocaba, Piedade, Boituva, Conchas, Lençóis Paulista e Marília, além de municípios de outros Estados.

Antes de o projeto ter início, os produtores que cultivaram o cogumelo-do-sol empregavam a mesma tecnologia utilizada para produzir o champignon, originário da França. O cogumelo nativo do Brasil, no entanto, necessita de alternância de temperaturas para frutificar (dez a 14 dias de calor, seguidos de três a cinco dias de frio e, novamente, o mesmo período de calor). “Para chegar a essa conclusão, foi necessário reproduzir, em estufas adaptadas dentro de contêineres, as condições de cultivo de campo. As variáveis foram então controladas por um programa de computador especialmente desenvolvido para esse fim”, afirma Eira.

O agricultor Ricardo Berger, de Curitiba, PR, considera que, pelo fato da utilização do cogumelo na aplicação medicinal ser recente no Brasil, há ainda muita necessidade de orientação e informações confiáveis, principalmente, na formação do composto orgânico. “Como a sua produção depende de alta temperatura, ele acaba sendo muito suscetível às doenças”, observou o produtor, que processa cerca de 100 kg do produto por mês. “As orientações recebidas foram bastante úteis e positivas principalmente no controle das pragas”, completa o produtor Roberto Konno, de Piracicaba, SP.

O projeto temático gerou 122 resumos de trabalhos publicados em revistas especializadas nacionais e estrangeiras e apresentados em congressos científicos. Além disso, foram 10 monografias, 13 dissertações de mestrado apresentadas (18 estão em andamento) e sete teses de doutorado. “São achados importantes sobre caracterização de linhagens de cogumelos brasileiras, tecnologias de cultivo mais produtivas, princípios ativos e efeitos protetores na medicina e na fitopatologia”, avalia Eira.

Para os próximos anos, o objetivo é direcionar o foco para os princípios ativos concentrados nos extratos e correlacionar a intensidade dos efeitos medicinais a época da colheita, substrato e clima. Outro grande desafio será o de melhorar a produtividade sem reduzir os princípios ativos nesses cogumelos.

Características

Especialistas estimam que existem no mundo cerca de 10 mil espécies de cogumelos, das quais 700 são comestíveis, 50 tóxicas e entre 50 e 200 usadas em práticas medicinais. O cogumelo-do-sol (Agaricus blazei) possui o formato que lembra um guarda-chuva. Originário das regiões serranas da Mata Atlântica do sul do Estado de São Paulo. Foi levado, na década de 1970, para o Japão, onde suas propriedades medicinais começaram a ser estudadas. O cogumelo shiitake, por sua vez, foi trazido da Ásia por japoneses e chineses e aclimatado ao Brasil.

Quanto às condições de produção, o Agaricus blazei era inicialmente cultivado apenas em canteiros desprotegidos no campo e, por isso, ficou conhecido como cogumelo-do-sol. Mesmo ao ar livre, porém, ele é cultivado com uma cobertura de capim – e não recebe luz. No caso do shiitake, o cultivo é feito em toras de madeira, um método antigo e rústico, mas bastante utilizado por ser de baixo investimento.

AGRONOMIA II
Solução prática
Estudo combate doença que atinge cogumelo-do-sol

Graças a um estudo do pesquisador José Soares do Nascimento, desenvolvido no Departamento de Produção Vegetal, da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da UNESP, campus de Botucatu, alguns produtores de Agaricus blazei, conhecido como cogumelo-do-sol, poderão dormir mais tranqüilos. Ele descobriu uma forma de combater o fungo competidor que diminui a produtividade do cogumelo – que começou a ser cultivado no Brasil na década de 1990 e tem sido utilizado no estudo da prevenção do câncer, sendo comercializado em larga escala nos mercados japonês e norte-americano, que são os maiores importadores do produto – quase 90%.

O estudo gerou a publicação de dois artigos no Congresso Brasileiro de Micologia (2001) e no International Journal Medicinal Mushroom (2003), além da tese de doutorado pela Área de Energia na Agricultura da FCA da UNESP, orientada pelo professor Augusto Ferreira da Eira.

O fungo, conhecido cientificamente como Diehliomyces microsporus, se desenvolve no composto à base de fenos e bagaço de cana-de-açúcar, utilizado no cultivo do cogumelo-do-sol. “Ele compete por nutrientes e causa a degeneração do micélio – espécie de tecido responsável pelas funções vegetativas do organismo, como seu crescimento”, explica Nascimento.

O pesquisador descobriu a doença em 2000, quando começaram a surgir várias reclamações de produtores do cogumelo-do-sol que relatavam o aparecimento de “pipocas” no cultivo, causando grandes prejuízos. “Começamos a estudar e descobrimos que esse fungo era o mesmo que afetava os cultivos de champignon na década de 1930 nos Estados Unidos, sem nenhum relato no Brasil”, diz Nascimento. Após a descoberta da doença, o grande desafio foi achar uma maneira de preveni-la. “Os fungicidas não são recomendados para os produtos naturais e medicinais e, quando usados, prejudicam o desenvolvimento do cogumelo”, explica Eira, da FCA.

Nascimento, professor da Universidade Federal de Pelotas-RS, graças às suas pesquisas, vem prestando assessoria para vários produtores. Ele descobriu que o fungo não sobrevive à temperatura de pasteurização do composto e da camada de cobertura, que é de 62ºC, por 4 horas. “Se o produtor não redimensionar o pasteurizador para esse padrão, o composto não atinge a temperatura suficiente para matar o fungo competidor”, relata. “O controle físico preventivo é uma medida segura, barata e prática, podendo ser efetuado durante o preparo do composto ou da camada de cobertura, cuidados estes necessários principalmente quando há indícios da contaminação”, conclui.

(J. Z.)

AGRONOMIA II
Biscoitos aprovados
Visão transdisciplinar

O cogumelo da espécie Agaricus blazei, conhecido como cogumelo-do-sol, ao ser acrescentado à massa de pães, graças à pesquisa desenvolvida pelo engenheiro agrônomo João Kopytowski Filho e pelo nutricionista Luiz Fernando Santos Escouto, ambos doutorandos em Energia na Agricultura da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da UNESP, campus de Botucatu, pode ser transformado em biscoitos agradáveis ao paladar.

A inovação tecnológica, obtida a partir de conhecimentos e técnicas adquiridos na formação básica e na experiência com a pesquisa na pós-graduação – tanto na área de tecnologia de cultivo de cogumelos como na tecnologia de panificação –, é resultado de uma visão transdisciplinar em educação tecnológica. “Procuramos conseguir uma maneira mais aceitável para consumir os cogumelos e resolvemos avaliá-los na produção de pães”, conta Kopytowski, que estuda o fungo há três anos.

O biscoito obteve boa aceitação nos primeiros testes de consumo feitos por cerca de 100 pessoas em lojas de conveniência, supermercados e durante o Simpósio Nacional de Cogumelos Comestíveis, realizado, em 2003, em Mogi das Cruzes. “‘Gostei muito’ foi a resposta de 70% dos que provaram a novidade e responderam ao questionário”, conta Escouto, que, desde 2001, relaciona panificação com gastronomia. Na próxima etapa do estudo, um grupo de pessoas treinadas e orientadas irá fazer a degustação e avaliar vários aspectos do produto.

(J. Z.)

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