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O
benefício dos cogumelos
Pesquisa
financiada pela Fapesp e coordenada por docente da Faculdade de Ciências
Agronômicas de Botucatu demonstra propriedades nutricionais, imunológicas
anticarcinogênicas e antimutagênicas do cogumelo-do-sol e do shiitake. Julio
Zanella O
estudo da tecnologia de cultivo, da caracterização bioquímica
e dos efeitos protetores das espécies de cogumelos comestíveis e
considerados medicinais, como o Agaricus blazei, conhecido como cogumelo-do-sol,
e Lentinula edodes, o shiitake, foi o objetivo de pesquisa financiada pela Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e coordenada
pelo professor livre-docente voluntário da Faculdade de Ciências
Agronômicas (FCA) da UNESP, campus de Botucatu, Augusto Ferreira da Eira.
Trata-se de microrganismos muito ricos, seja por suas propriedades nutricionais,
imunológicas, anticarcinogênicas e antimutagênicas, seja por
sua utilização na culinária, informa o docente. O
projeto, iniciado em 1999, concluiu que o cogumelo-do-sol apresenta propriedades
medicinais preventivas (protetoras), além de funcionar como poderoso coadjuvante
no tratamento da hepatite C, na medida em que melhora o apetite dos pacientes,
que costumam emagrecer muito durante o tratamento da doença. Também
foi possível verificar que ele diminui os efeitos colaterais dos medicamentos
antivirais, como fadiga e dores musculares. Foi comprovado ainda que é
uma excelente fonte de proteínas e vitaminas, já que 100 gramas
de cogumelo desidratado contêm 35 gramas de proteínas, além
de ferro, fósforo, cálcio e vitaminas do complexo B. Também
verificamos que muitas das informações divulgadas em diversas propagandas
na televisão, em rádios e revistas sobre o cogumelo-do-sol ligadas
à diminuição de tumores são obtidas com o extrato
concentrado do fungo e não com comprimidos e chás, como é
divulgado, afirma Eiras. Na
FCA da UNESP, os estudos com os cogumelos começaram em 1986, com a criação
do Módulo de Cogumelos, que proporcionou a infra-estrutura necessária
para a realização do projeto temático da Fapesp, que tinha
como proposta inicial conhecer o que havia de verdade e mito relacionado às
propriedades de algumas espécies, cujos nomes estavam associados a efeitos
terapêuticos os mais variados, como a cura do câncer. Com
esse objetivo, foram integrados especialistas de imunologia, patologia, radiologia,
bioquímica e agronomia, num total de 80 pesquisadores, distribuídos
em sete equipes, de instituições como a FCA, a Faculdade de Medicina
(FM) e o Instituto de Biociências (IB), todos no campus da UNESP de Botucatu,
Esalq/USP, UFSCar e Universidade Estadual de Londrina (Uel). Inicialmente,
houve a preocupação de estudar, de fato, o cogumelo A. blazei. Foram
então escolhidas para análise linhagens dos Estados de São
Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Pesquisadores
brasileiros e de Israel, liderados por Solomon Wasser, da Universidade de Haifa,
concluíram, em estudo publicado, em 2003, no International Journal of Medicinal
Mushrooms, que elas devem ser identificadas de forma diferenciada, como uma nova
espécie (Agaricus brasiliensis), porque são diferentes das encontradas
na Flórida, EUA. Além
dessa questão metodológica, estudos coordenados pela pesquisadora
Lúcia Regina Ribeiro, do Departamento de Patologia da FM, avaliaram a eficiência
em ratos dos extratos aquosos, como sucos e chás, do cogumelo-do-sol e
do shiitake contra mutações induzidas por drogas (efeitos quimioprotetores)
e outros danos celulares. Os experimentos demonstraram que, de fato, eles protegem
contra alterações genéticas das células. Quando
o cogumelo foi moído e incorporado à ração, o benefício
nos ratos foi a redução do aparecimento de focos tumorais,
informa Eira. Na
área de Imunologia, experimentos realizados pela equipe coordenada pelo
docente Ramon Kaneno, do IB, concluíram que extratos aquosos do cogumelo-do-sol
obtidos por fervura diminuíram a sobrevida de camundongos portadores de
tumores cancerígenos em relação aos tratamentos com sucos,
provavelmente por efeitos hepatotóxicos. Eira diz que os benefícios
do cogumelo-do-sol em relação a tumores podem ser observados apenas
quando são utilizadas frações concentradas do cogumelo-do-sol,
nas quais os princípios ativos encontram-se mais fortemente presentes.
Em frações solúveis em oxalato de amônia (extrato
AFT), por exemplo, os tumores, de fato, não regrediram, mas estagnaram,
comenta. Foi
verificado ainda que o cogumelo-do-sol tem efeito na neutralização
das moléculas ligadas a processos celulares degenerativos (os radicais
livres) e funciona como auxiliar importante em alguns tipos de tratamento, como
a quimioterapia, porque elimina, em parte, os efeitos colaterais. Especificamente
quanto à radioterapia, a equipe coordenada pela pesquisadora da FM Alzira
Teruio Yida-Sakati mostrou que sucos e chás de algumas linhagens são
modificadoras das radiorespostas. Se ingeridos após a radiação,
os chás não interferem no tratamento, mas se administrados antes
da radiação, podem tornar o indivíduo resistente à
radioterapia o que reduz o efeito do tratamento. Em relação
aos sucos, eles demonstraram efeito radioprotetor tanto antes quanto depois da
sessão de radiação. Portanto, a ingestão de
chás deve ser evitada antes da radiação e a de sucos, antes
ou depois, conclui Eira. Orientanda
de Carlos Antônio Caramori, da FM, a mestranda Milena Costa Menezes avaliou
a influência da suplementação dietética com o cogumelo-do-sol
na evolução do estado nutricional e do tratamento de hepatite C
em pacientes do ambulatório do Hospital de Clínicas da Faculdade.
Pesquisa realizada durante seis meses apontou que o grupo de portadores da
doença que consumiu uma mistura de seis diferentes linhagens em forma de
pó apresentou melhora em todos os efeitos colaterais relatados em comparação
com o grupo de controle após o primeiro mês de tratamento medicamentoso. As
pesquisas desenvolvidas no projeto também estão sendo utilizadas
para prestar assessoria técnica a produtores, principalmente do cogumelo-do-sol,
em cidades paulistas como Sorocaba, Piedade, Boituva, Conchas, Lençóis
Paulista e Marília, além de municípios de outros Estados.
Antes
de o projeto ter início, os produtores que cultivaram o cogumelo-do-sol
empregavam a mesma tecnologia utilizada para produzir o champignon, originário
da França. O cogumelo nativo do Brasil, no entanto, necessita de alternância
de temperaturas para frutificar (dez a 14 dias de calor, seguidos de três
a cinco dias de frio e, novamente, o mesmo período de calor). Para
chegar a essa conclusão, foi necessário reproduzir, em estufas adaptadas
dentro de contêineres, as condições de cultivo de campo. As
variáveis foram então controladas por um programa de computador
especialmente desenvolvido para esse fim, afirma Eira. O
agricultor Ricardo Berger, de Curitiba, PR, considera que, pelo fato da utilização
do cogumelo na aplicação medicinal ser recente no Brasil, há
ainda muita necessidade de orientação e informações
confiáveis, principalmente, na formação do composto orgânico.
Como a sua produção depende de alta temperatura, ele acaba
sendo muito suscetível às doenças, observou o produtor,
que processa cerca de 100 kg do produto por mês. As orientações
recebidas foram bastante úteis e positivas principalmente no controle das
pragas, completa o produtor Roberto Konno, de Piracicaba, SP. O
projeto temático gerou 122 resumos de trabalhos publicados em revistas
especializadas nacionais e estrangeiras e apresentados em congressos científicos.
Além disso, foram 10 monografias, 13 dissertações de mestrado
apresentadas (18 estão em andamento) e sete teses de doutorado. São
achados importantes sobre caracterização de linhagens de cogumelos
brasileiras, tecnologias de cultivo mais produtivas, princípios ativos
e efeitos protetores na medicina e na fitopatologia, avalia Eira. Para
os próximos anos, o objetivo é direcionar o foco para os princípios
ativos concentrados nos extratos e correlacionar a intensidade dos efeitos medicinais
a época da colheita, substrato e clima. Outro grande desafio será
o de melhorar a produtividade sem reduzir os princípios ativos nesses cogumelos. Características Especialistas
estimam que existem no mundo cerca de 10 mil espécies de cogumelos, das
quais 700 são comestíveis, 50 tóxicas e entre 50 e 200 usadas
em práticas medicinais. O cogumelo-do-sol (Agaricus blazei) possui o formato
que lembra um guarda-chuva. Originário das regiões serranas da Mata
Atlântica do sul do Estado de São Paulo. Foi levado, na década
de 1970, para o Japão, onde suas propriedades medicinais começaram
a ser estudadas. O cogumelo shiitake, por sua vez, foi trazido da Ásia
por japoneses e chineses e aclimatado ao Brasil. Quanto
às condições de produção, o Agaricus blazei
era inicialmente cultivado apenas em canteiros desprotegidos no campo e, por isso,
ficou conhecido como cogumelo-do-sol. Mesmo ao ar livre, porém, ele é
cultivado com uma cobertura de capim e não recebe luz. No caso do
shiitake, o cultivo é feito em toras de madeira, um método antigo
e rústico, mas bastante utilizado por ser de baixo investimento. |
AGRONOMIA
II Solução
prática Estudo
combate doença que atinge cogumelo-do-sol Graças
a um estudo do pesquisador José Soares do Nascimento, desenvolvido no Departamento
de Produção Vegetal, da Faculdade de Ciências Agronômicas
(FCA) da UNESP, campus de Botucatu, alguns produtores de Agaricus blazei, conhecido
como cogumelo-do-sol, poderão dormir mais tranqüilos. Ele descobriu
uma forma de combater o fungo competidor que diminui a produtividade do cogumelo
que começou a ser cultivado no Brasil na década de 1990 e
tem sido utilizado no estudo da prevenção do câncer, sendo
comercializado em larga escala nos mercados japonês e norte-americano, que
são os maiores importadores do produto quase 90%. O
estudo gerou a publicação de dois artigos no Congresso Brasileiro
de Micologia (2001) e no International Journal Medicinal Mushroom (2003), além
da tese de doutorado pela Área de Energia na Agricultura da FCA da UNESP,
orientada pelo professor Augusto Ferreira da Eira. O
fungo, conhecido cientificamente como Diehliomyces microsporus, se desenvolve
no composto à base de fenos e bagaço de cana-de-açúcar,
utilizado no cultivo do cogumelo-do-sol. Ele compete por nutrientes e causa
a degeneração do micélio espécie de tecido
responsável pelas funções vegetativas do organismo, como
seu crescimento, explica Nascimento. O
pesquisador descobriu a doença em 2000, quando começaram a surgir
várias reclamações de produtores do cogumelo-do-sol que relatavam
o aparecimento de pipocas no cultivo, causando grandes prejuízos.
Começamos a estudar e descobrimos que esse fungo era o mesmo que
afetava os cultivos de champignon na década de 1930 nos Estados Unidos,
sem nenhum relato no Brasil, diz Nascimento. Após a descoberta da
doença, o grande desafio foi achar uma maneira de preveni-la. Os
fungicidas não são recomendados para os produtos naturais e medicinais
e, quando usados, prejudicam o desenvolvimento do cogumelo, explica Eira,
da FCA. Nascimento,
professor da Universidade Federal de Pelotas-RS, graças às suas
pesquisas, vem prestando assessoria para vários produtores. Ele descobriu
que o fungo não sobrevive à temperatura de pasteurização
do composto e da camada de cobertura, que é de 62ºC, por 4 horas.
Se o produtor não redimensionar o pasteurizador para esse padrão,
o composto não atinge a temperatura suficiente para matar o fungo competidor,
relata. O controle físico preventivo é uma medida segura,
barata e prática, podendo ser efetuado durante o preparo do composto ou
da camada de cobertura, cuidados estes necessários principalmente quando
há indícios da contaminação, conclui. (J.
Z.) AGRONOMIA
II Biscoitos
aprovados Visão
transdisciplinar O
cogumelo da espécie Agaricus blazei, conhecido como cogumelo-do-sol, ao
ser acrescentado à massa de pães, graças à pesquisa
desenvolvida pelo engenheiro agrônomo João Kopytowski Filho e pelo
nutricionista Luiz Fernando Santos Escouto, ambos doutorandos em Energia na Agricultura
da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da UNESP, campus de Botucatu,
pode ser transformado em biscoitos agradáveis ao paladar. A
inovação tecnológica, obtida a partir de conhecimentos e
técnicas adquiridos na formação básica e na experiência
com a pesquisa na pós-graduação tanto na área
de tecnologia de cultivo de cogumelos como na tecnologia de panificação
, é resultado de uma visão transdisciplinar em educação
tecnológica. Procuramos conseguir uma maneira mais aceitável
para consumir os cogumelos e resolvemos avaliá-los na produção
de pães, conta Kopytowski, que estuda o fungo há três
anos. O
biscoito obteve boa aceitação nos primeiros testes de consumo feitos
por cerca de 100 pessoas em lojas de conveniência, supermercados e durante
o Simpósio Nacional de Cogumelos Comestíveis, realizado, em 2003,
em Mogi das Cruzes. Gostei muito foi a resposta de 70% dos que
provaram a novidade e responderam ao questionário, conta Escouto,
que, desde 2001, relaciona panificação com gastronomia. Na próxima
etapa do estudo, um grupo de pessoas treinadas e orientadas irá fazer a
degustação e avaliar vários aspectos do produto. (J.
Z.) |