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Relação
espaço-tempo
Pesquisa mostra elos entre a teoria
da relatividade e o cubismo
O que há de
comum entre a teoria da relatividade, elaborada por Albert Einstein,
e o cubismo, que tem como principais representantes os pintores
Picasso e Braque? Embora a primeira esteja ligada à matemática
e tenha numerosas implicações físicas e o segundo
se vincule às artes plásticas, ambos surgiram no início
do século XX e trabalham com um mesmo conceito: a relação
espaçotempo. Essa é a idéia defendida
pelo artista plástico José Marcos Romão, docente
do Departamento de Artes e Representação Gráfica
da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac)
da UNESP, campus de Bauru, na tese de doutoramento A relação
espaçotempo na arte cubista, defendida na instituição,
que teve uma síntese publicada na série Pesquisa das
Coleções Faac (informações: http://www.faac.unesp.br/pesquisa/cadernos/downframe.html).
A teoria da relatividade, ao conceber que cada observador percebe
a velocidade da luz individualmente, transformou o conceito de espaço
e tempo, considerando que cada pessoa entende essas relações
de maneira única. Além disso, Einstein demonstrou
em seus estudos que o espaço e o tempo não podem ser
verificados isoladamente, ou seja, um evento só pode ser
definido conforme seu lugar no espaço nas três
dimensões e o instante em que ocorre o tempo.
Segundo o cientista alemão, portanto, o espaço não
é tridimensional, com largura, espessura e profundidade.
Ele só existe vinculado ao tempo, formando o espaçotempo,
ou quarta dimensão, que é, na verdade, uma simplificação
do conceito. A relação espaçotempo
na arte cubista tem similaridade com o princípio da indissociabilidade
espaço-temporal de Einstein, explica o docente.
A arte cubista apoderou-se desse conhecimento para tentar representar,
em uma superfície plana, a maneira como um corpo poderia
ser visto na quarta dimensão. Nas representações
cubistas, o espaço e as entidades que o ocupam se acham fragmentados
em múltiplos planos geométricos dispostos em inúmeras
dimensões, de modo que não há distinção
entre tempo e espaço, descreve Romão.
Ao invés de elementos dispostos sobre um fundo fixo, o que
se observa é, portanto, um jogo entre as dimensões
espaciais e temporais. O espaço tridimensional é
fragmentado, os objetos são espalhados sobre diversos planos
e os ângulos retos e formas descontínuas são
as técnicas mais exploradas, aponta o docente da Faac.
Por isso, um objeto retratado em um quadro cubista parece deformado
para os olhos acostumados com a arte clássica e a renascentista
que usam a imitação da realidade e a perspectiva
como princípios básicos. Em seu trabalho, Romão
usa como exemplo o quadro que deu origem ao cubismo: As donzelas
de Avignon, do pintor espanhol Pablo Picasso um dos mais
influentes artistas do século XX. Na obra são vistas
cinco mulheres: quatro em pé, e uma sentada como se fosse
vista em três quartos quase de lado no canto
inferior direito do quadro. Apesar de todas serem delineadas
por traços geométricos, com linhas retas e vértices,
a que está sentada representa melhor o ideal cubista,
indica Romão.
A figura sentada está com a perna esquerda dobrada, com o
braço esquerdo apoiado na perna e com o rosto apoiado no
braço. No entanto, ao contrário do esperado, o rosto
da mulher está virado para o observador e, além disso,
a parte direita do corpo dela está de costas, paralela à
superfície da tela. Dessa forma, a figura em questão
está representada segundo três pontos de vista diferentes.
A isso se dá o nome de simultaneísmo, assim definido
por Romão: É a possibilidade de percepção
e de representação de várias ocorrências
ao mesmo tempo.
A tese indica a possibilidade de o surgimento desse novo movimento
artístico no início do século XX ter sido uma
forma encontrada pelos pintores da época de se rebelar contra
o excesso de formalidade da arte renascentista, que ditava as regras
estéticas até então. Superar o sistema
que se impusera à pintura desde o quattrocento
e, com isso, libertar a representação das amarras
impostas pela perspectiva era uma das intenções do
cubismo, afirma o docente da Faac.
A arte cubista e a teoria da relatividade também são
fruto de um período de grandes transformações
em diversas áreas do conhecimento humano. A acelerada industrialização
e a urbanização do começo do século
passado exigiram uma modernização também na
arte. Não se trata de uma coincidência o surgimento
dessas manifestações, mas sim de uma confluência
de interesses comuns à arte e à ciência no início
do século XX, comenta o professor.
O cubismo encontrou na geometria o paradigma que permitiu à
arte acompanhar os avanços que se davam nas ciências.
Da mesma forma que os pintores renascentistas italianos adotaram
a perspectiva como o meio mais adequado à representação
do mundo daquela época, pode-se falar de uma quarta dimensão
quando se pensa no modelo adotado pelos cubistas para representar
um mundo agora confrontado com a teoria da relatividade, argumenta
Romão.
Segundo o professor da Faac, a sua pesquisa possibilita uma melhor
compreensão da cultura do século passado. Quase
toda a ciência do século XX foi influenciada pela teoria
da relatividade e quase toda a arte daquele século foi influenciada
pelo cubismo, conclui o professor.
Reflexões precoces
As preocupações
do físico alemão Albert Einstein (1879-1955) que mais
tarde o levaram à criação da teoria da relatividade
começaram quando ele tinha 16 anos e estão registradas
em uma carta enviada a um tio. Junto a um pequeno trabalho sobre
alguns problemas que ocupavam sua mente, estão reflexões
que resultariam na teoria, dividida em duas etapas: em 1905, ele
publicou um trabalho que mais tarde ficou conhecido pelo nome de
teoria da relatividade especial, que trata do movimento uniforme;
e em 1915, publicou a teoria da relatividade geral, que trata do
movimento acelerado e da gravitação.
Duas vertentes
Movimento artístico
que se iniciou em 1909, liderado pelos artistas plásticos
Picasso e Braque, o cubismo tem as suas raízes e teorias
colocadas anteriormente pelo pintor Paul Cézanne. Houve duas
vertentes. O cubismo analítico apresentava simultaneamente
diferentes aspectos do mesmo objeto, abandonando a perspectiva convencional
e usando faces sobrepostas. A colagem foi um meio de dar relevância
à crua realidade, criando uma ruptura na bidimensionalidade
da tela. O cubismo sintético buscou traduzir tudo o que poderia
ser visto numa linguagem própria de signos visuais. Tornou,
assim, a pintura um mundo paralelo, cada vez mais longe do referente
concreto e não mais uma reflexão da realidade observada
pelo pintor.
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