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[ n. 190/julho 2004 ]

 Pág. 16

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::ARTES PLÁSTICAS::

Relação espaço-tempo
Pesquisa mostra elos entre a teoria da relatividade e o cubismo

O que há de comum entre a teoria da relatividade, elaborada por Albert Einstein, e o cubismo, que tem como principais representantes os pintores Picasso e Braque? Embora a primeira esteja ligada à matemática e tenha numerosas implicações físicas e o segundo se vincule às artes plásticas, ambos surgiram no início do século XX e trabalham com um mesmo conceito: a relação espaço–tempo. Essa é a idéia defendida pelo artista plástico José Marcos Romão, docente do Departamento de Artes e Representação Gráfica da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) da UNESP, campus de Bauru, na tese de doutoramento A relação espaço–tempo na arte cubista, defendida na instituição, que teve uma síntese publicada na série Pesquisa das Coleções Faac (informações: http://www.faac.unesp.br/pesquisa/cadernos/downframe.html).
A teoria da relatividade, ao conceber que cada observador percebe a velocidade da luz individualmente, transformou o conceito de espaço e tempo, considerando que cada pessoa entende essas relações de maneira única. Além disso, Einstein demonstrou em seus estudos que o espaço e o tempo não podem ser verificados isoladamente, ou seja, um evento só pode ser definido conforme seu lugar no espaço – nas três dimensões – e o instante em que ocorre – o tempo.

Segundo o cientista alemão, portanto, o espaço não é tridimensional, com largura, espessura e profundidade. Ele só existe vinculado ao tempo, formando o “espaço–tempo”, ou quarta dimensão, que é, na verdade, uma simplificação do conceito. “A relação espaço–tempo na arte cubista tem similaridade com o princípio da indissociabilidade espaço-temporal de Einstein”, explica o docente.

A arte cubista apoderou-se desse conhecimento para tentar representar, em uma superfície plana, a maneira como um corpo poderia ser visto na quarta dimensão. “Nas representações
cubistas, o espaço e as entidades que o ocupam se acham fragmentados em múltiplos planos geométricos dispostos em inúmeras dimensões, de modo que não há distinção entre tempo e espaço”, descreve Romão.

Ao invés de elementos dispostos sobre um fundo fixo, o que se observa é, portanto, um jogo entre as dimensões espaciais e temporais. “O espaço tridimensional é fragmentado, os objetos são espalhados sobre diversos planos e os ângulos retos e formas descontínuas são as técnicas mais exploradas”, aponta o docente da Faac.
Por isso, um objeto retratado em um quadro cubista parece deformado para os olhos acostumados com a arte clássica e a renascentista – que usam a imitação da realidade e a perspectiva como princípios básicos. Em seu trabalho, Romão usa como exemplo o quadro que deu origem ao cubismo: As donzelas de Avignon, do pintor espanhol Pablo Picasso – um dos mais influentes artistas do século XX. Na obra são vistas cinco mulheres: quatro em pé, e uma sentada como se fosse vista em três quartos – quase de lado – no canto inferior direito do quadro. “Apesar de todas serem delineadas por traços geométricos, com linhas retas e vértices, a que está sentada representa melhor o ideal cubista”, indica Romão.

A figura sentada está com a perna esquerda dobrada, com o braço esquerdo apoiado na perna e com o rosto apoiado no braço. No entanto, ao contrário do esperado, o rosto da mulher está virado para o observador e, além disso, a parte direita do corpo dela está de costas, paralela à superfície da tela. Dessa forma, a figura em questão está representada segundo três pontos de vista diferentes. A isso se dá o nome de simultaneísmo, assim definido por Romão: “É a possibilidade de percepção e de representação de várias ocorrências ao mesmo tempo”.
A tese indica a possibilidade de o surgimento desse novo movimento artístico no início do século XX ter sido uma forma encontrada pelos pintores da época de se rebelar contra o excesso de formalidade da arte renascentista, que ditava as regras estéticas até então. “Superar o sistema que se impusera à pintura desde o ‘quattrocento’ e, com isso, libertar a representação das amarras impostas pela perspectiva era uma das intenções do cubismo”, afirma o docente da Faac.

A arte cubista e a teoria da relatividade também são fruto de um período de grandes transformações em diversas áreas do conhecimento humano. A acelerada industrialização e a urbanização do começo do século passado exigiram uma modernização também na arte. “Não se trata de uma coincidência o surgimento dessas manifestações, mas sim de uma confluência de interesses comuns à arte e à ciência no início do século XX”, comenta o professor.

O cubismo encontrou na geometria o paradigma que permitiu à arte acompanhar os avanços que se davam nas ciências. “Da mesma forma que os pintores renascentistas italianos adotaram a perspectiva como o meio mais adequado à representação do mundo daquela época, pode-se falar de uma quarta dimensão quando se pensa no modelo adotado pelos cubistas para representar um mundo agora confrontado com a teoria da relatividade”, argumenta Romão.

Segundo o professor da Faac, a sua pesquisa possibilita uma melhor compreensão da cultura do século passado. “Quase toda a ciência do século XX foi influenciada pela teoria da relatividade e quase toda a arte daquele século foi influenciada pelo cubismo”, conclui o professor.


Reflexões precoces
As preocupações do físico alemão Albert Einstein (1879-1955) que mais tarde o levaram à criação da teoria da relatividade começaram quando ele tinha 16 anos e estão registradas em uma carta enviada a um tio. Junto a um pequeno trabalho sobre alguns problemas que ocupavam sua mente, estão reflexões que resultariam na teoria, dividida em duas etapas: em 1905, ele publicou um trabalho que mais tarde ficou conhecido pelo nome de teoria da relatividade especial, que trata do movimento uniforme; e em 1915, publicou a teoria da relatividade geral, que trata do movimento acelerado e da gravitação.


Duas vertentes
Movimento artístico que se iniciou em 1909, liderado pelos artistas plásticos Picasso e Braque, o cubismo tem as suas raízes e teorias colocadas anteriormente pelo pintor Paul Cézanne. Houve duas vertentes. O cubismo analítico apresentava simultaneamente diferentes aspectos do mesmo objeto, abandonando a perspectiva convencional e usando faces sobrepostas. A colagem foi um meio de dar relevância à “crua” realidade, criando uma ruptura na bidimensionalidade da tela. O cubismo sintético buscou traduzir tudo o que poderia ser visto numa linguagem própria de signos visuais. Tornou, assim, a pintura um mundo paralelo, cada vez mais longe do referente concreto e não mais uma reflexão da realidade observada pelo pintor.


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