MEDICINA
A arte do saber ver

Há muitas maneiras de ver um quadro. Um crítico de arte observará a obra com a preocupação de analisar a intensidade de cores, a relação entre os volumes e o estilo das pinceladas, enquanto um historiador estará bem mais preocupado com a veracidade dos fatos retratados e a identificação daqueles que aparecem nas telas. O neurologista Luiz Antônio Resende, do Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina (FM) da UNESP, campus de Botucatu, tem um outro olhar. Em sua livre-docência, intitulada Sobre a Síndrome de Romberg, defendida na Faculdade, identifica, em várias telas, indivíduos com a raríssima e pouco conhecida Síndrome de Romberg, um tipo de paralisia progressiva que atinge e deforma a face, descrita pela primeira vez, em 1846, pelo médico do Exército Imperial da Prússia e professor e diretor do Instituto Policlínico Real da Universidade Frederico-Guilherme, de Berlim, Moritz Heinrich Romberg (1795-1873). “Estudo o mal há mais de 20 anos, desde a minha residência médica, quando conheci um paciente com essa doença”, comenta.
Premiado pela Academia Nacional de Medicina, o trabalho de Rezende apresenta, logo em suas páginas iniciais, informações que vêm conseguindo grande repercussão na comunidade médica. Ele identificou, em obras de artistas plásticos consagrados como Grünewald, Lucas Cranach, o Velho, Rembrandt e J. S. Berthellemy, retratados com as características físicas daqueles que sofrem da Síndrome. “As causas da doença ainda são pouco conhecidas e sua principal característica é a atrofia de um dos lados do rosto”, explica o neurologista.

DORES NA FACE
Os primeiros sintomas da Síndrome são dores na face. Elas evoluem para manchas, que aumentam progressivamente de tamanho. Em seguida, a superfície da região atingida começa a se deformar, podendo deixar o lado atingido completamente assimétrico em relação ao outro, que permanece intacto. “A Síndrome, entretanto, não se limita a abalar a aparência da pessoa. Podem surgir problemas como dores de cabeça, crises convulsivas e dormência no corpo”, diz Resende. “Isso sem contar o aspecto psicológico, pois a pessoa com a paralisia facial tem a simetria de seu rosto eliminada. Ao ter a sua auto-imagem prejudicada, ela começa a sofrer de distúrbios psicológicos e cair em graves quadros de depressão.”
Embora não existam dados epidemiológicos disponíveis, a raridade da Síndrome de Romberg é comprovada pela própria prática médica de Resende, que, ao longo da carreira, conheceu apenas aproximadamente uma dezena de casos. “A evolução do mal ocorre num intervalo de dois a três anos. O único tratamento é a cirurgia plástica reparadora, mas, meses ou anos depois, os sintomas voltam”, afirma o neurologista da FM.
Admirador de artes plásticas, Resende desenvolveu a capacidade de encontrar pessoas que poderiam sofrer da Síndrome em obras de arte. Em Cristo Escarnecido (1503), de Mathis Gothart-Nithart, cognonimado Grünewald, considerado um dos maiores pintores alemães do século XVI, ele identificou um homem que açoita Jesus como portador do mal. Já em A Crucificação (1503), de Lucas Cranach, o Velho, um homem de roupa verde com a lança na vertical também apresenta características da Síndrome. “Há rarefação da barba, na mandíbula entre as lesões cutâneas. Na região das têmporas, a pele está enrugada e ligeiramente hipercrômica”, afirma.

No Retrato de Gerard de Lairesse (1665), de Rembrandt, Resende identifica o queixo assimétrico e as depressões cutâneas próprios da doença. Já no quadro intitulado Denis Diderot, de J. S. Berthellemy, o mestre do iluminismo francês é mostrado com características do mal. “Há uma grande mancha cutânea na região frontal direita, com ligeira depressão. A sobrancelha e a órbita são assimétricas e mais caídas, à direita, enquanto a fenda palpebral também é assimétrica, também inclinada à direita”, diz Resende.
O neurologista participou, em 1991, com mais quatro docentes da FM e um da Universidade de Buenos Aires, de um importante estudo, publicado na Reviste neurologique, uma das mais importantes publicações mundiais da área neurológica. “Relacionamos, a partir de estudos com gatos, cães e coelhos, a Síndrome ao sistema nervoso autônomo, região que controla os batimentos cardíacos, a respiração e a temperatura corporal”, conta. “Foi um passo importante para compreender os mecanismos de atrofia que afetam os que sofrem da Síndrome”, conclui. “Infelizmente, mesmo assim, ainda se conhece muito pouco sobre a doença. Nesse sentido, as artes plásticas são uma importante forma de documentação histórica da medicina antes da invenção da fotografia do século XIX.”

 

Oscar D’Ambrosio
SALA ESPECIAL
A escolha dos melhores
Pesquisadora participa de curadoria de Salão Paulista

A décima edição do Salão Paulista de Arte Contemporânea traz, pela primeira vez, a exibição de obras dos artistas premiados no salão anterior, realizado em 2000. Para isso, foi montada uma Sala Especial, inaugurada oficialmente em 25 de maio último, na Fundação Nacional de Arte (Funarte), na Alameda Nothmann, 1058, bairro de Campos Elíseos, na Capital, onde permanece até 28 de junho. A honra de curar essa exposição coube à professora de Cerâmica e Escultura do Departamento de Artes Plásticas do Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo, Lalada Dalglish, que desempenhou a função junto com a crítica de arte Elvira Vernashi, da Associação Paulista dos Críticos de Arte. Os trabalhos selecionados dos artistas Eduardo Costa, Anabela Santos, Eduardo Ruegg, Gregório Gruber, Luciana Costa e Monica Barth podem ser vistos como uma prévia do 10o Salão, que ficará aberto para visitação durante um mês, a partir de 22 de junho em seis diferentes locais, inclusive na própria Funarte (informações pelo telefone 0-xx-11-3662-5177).
Para a professora do IA, a proposta da Sala Especial é muito interessante. “Não basta premiar os artistas. É preciso trazê-los, no evento seguinte, para mostrar seus novos trabalhos”, avalia. Coube à curadoria definir os critério para que os próprios artistas selecionassem algumas obras para compor a Sala Especial. “Nós os orientamos para escolher trabalhos que fossem o mais contemporâneos possível”, diz Lalada.
O resultado foi um conjunto bastante variado: das pinturas do centro antigo da cidade de São Paulo, feitas por Gregório Gruber, aos trabalhos intimistas da artista plástica Anabela Santos, que expõe imagens atemporais de fotos de família. “A melhor premiação para qualquer artista é ter espaço para mostrar suas obras. Os salões de arte desempenham este papel”, diz Lalada, que além de curadora também representa a UNESP na Comissão de Artes Plásticas do 10o Salão. “Nas décadas de 70 e 80, os salões de arte eram importantes vias de lançamento dos artistas na sociedade. “A tendência é que esta prática seja retomada”, afirma a professora.
Lara Lima