MEDICINA VETERINÁRIA
O perigo da cisticercose
Pesquisa analisa carne bovina comercializada na Região Noroeste do Estado

Problema comumente encontrado nos rebanhos brasileiros, a cisticercose bovina causa enormes prejuízos a frigoríficos e produtores rurais de vários Estados brasileiros, pois, devido à contaminação da carne, as carcaças dos animais podem ser utilizadas apenas parcialmente, após a esterilização, ou são totalmente perdidas, tendo que ser trituradas e transformadas em ração. O mal – que não é apenas um problema de perda de produtividade, mas também de saúde pública, pois o ser humano é o hospedeiro definitivo dos ovos de cisticerco, – foi o tema da dissertação de mestrado apresentada pelo médico veterinário José Osmar Maximino Fernandes, do Departamento de Biologia e Zootecnia da Faculdade de Odontologia (FO) da UNESP, campus de Araçatuba. “Analisei a carne comercializada na região noroeste de São Paulo entre 1990 e 2000 e concluí que a média de contaminação dos bovinos comprados pelos seis frigoríficos da região foi de 4,18% nesse período”, diz. “Este índice é alto, pois quase 2 milhões de cabeças foram vendidas para aqueles frigoríficos nesse período.”
Fernandes, que apresentou sua dissertação de mestrado na Faculdade de Engenharia (FE) da UNESP, campus de Ilha Solteira, lembra que são as fezes humanas que contêm os ovos do parasita responsável pela contaminação de pastagens e cursos d’água. “Ao serem ingeridos pelos bovinos, os ovos sofrem a ação dos sucos gástricos e eclodem, liberando larvas, que se alojam nos músculos do animal e, depois, em casos extremos, podem se fixar no cérebro da pessoa que consome a carne contaminada, causando até mesmo a sua morte”, explica.

DOENÇA FREQÜENTE
Fiscal federal agropecuário do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Fernandes analisou dados do Serviço de Inspeção Federal (SIF) referentes aos seis frigoríficos da 9a Região Administrativa do Estado (dois situados em Andradina e os demais nos municípios de Ilha Solteira, Sud Mennucci, Guararapes e Araçatuba). “Mesmo antes de iniciar a pesquisa, sabia que a cisticercose era a doença mais freqüente no gado que chega na região”, avalia o médico veterinário, formado na Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da UNESP, campus de Jaboticabal.
A cisticercose bovina é transmitida aos seres humanos por meio da carne contaminada com o cisticerco. Para quebrar o ciclo de contaminação é preciso medicar as pessoas contaminadas e evitar que façam suas necessidades fisiológicas no meio ambiente. Quanto aos animais doentes, ainda não existem medicamentos cientificamente comprovados para tratá-los. “Por isso, a inspeção sanitária da carne é fundamental”, afirma Fernandes.
Os fiscais federais detectam a doença durante o abate, por meio da visualização, da apalpação e do corte dos músculos. Se a contaminação é constatada, a carne é encaminhada ao Departamento de Inspeção Final, que, dependendo do estágio de desenvolvimento da doença e do nível da infestação, determina que partes serão descartadas. “Pode ocorrer desde a remoção da área atingida, com a liberação do restante, até a condenação total da carcaça”, diz Fernandes.

CONSERVAÇÃO DA CARCAÇA
Há casos em que o tratamento da carcaça – com sal, baixas temperaturas ou calor - permite o aproveitamento parcial da carne. No entanto, havendo contaminação, não há como fugir dos prejuízos. “Os frigoríficos pagam 10% menos quando a carcaça foi tratada a frio ou se precisou da salga. Já a conservação pelo calor reduz em 50% o valor pago por esses estabelecimentos”, ressalta Fernandes.

O pesquisador analisou a incidência da cisticercose bovina de acordo com a procedência (estado de origem), a idade e o sexo do gado. “Quanto mais os rebanhos estão próximos de aglomerados urbanos, maior o índice de contaminação do gado”, explica. Isso fica evidente quando se observam os índices de incidência dos Estados que abastecem os frigoríficos da região: São Paulo (4,60%), Mato Grosso (4,36%), Mato Grosso do Sul (3,56%), Minas Gerais (3,29%), Goiás (2,55%) e Paraná (2,49%).
Fernandes também especificou os índices de contaminação da carne para cada um dos 43 municípios que compõem a 9a Região Administrativa. “Detectamos casos preocupantes no Estado, como o município de Lourdes, que apresentou índice de 9,9%”, destaca o pesquisador. “Nossa intenção é alertar tanto as autoridades quanto a população para os riscos do comércio clandestino da carne”, complementa. “Como prevenção, além de evitar o consumo de carne malpassada, os consumidores devem verificar se o produto tem o selo de inspeção federal.”

Lara Lima
ENGENHARIA
Por um solo menos permeável
Ilha Solteira desenvolve material de baixo custo e fácil manuseio

A construção de aterros sanitários e de lagoas para tratamento de resíduos deve incluir uma medida importante para evitar contaminação do meio ambiente: a impermeabilização do solo. Como os materiais disponíveis no mercado – principalmente polímeros e concreto – têm custo elevado, o desenvolvimento de alternativas é uma prioridade para reduzir despesas. No intuito de gastar menos, porém, muitos construtores deixam de lado a qualidade e substituem os materiais caros pelo solo compactado do lugar onde será construído o aterro, atitude que gera prejuízo para o meio ambiente, pois o solo brasileiro é altamente permeável.
O Projeto “Barreira de Proteção Ambiental de Baixo Custo”, desenvolvido há dois anos, na Faculdade de Engenharia (FE) da UNESP, campus de Ilha Solteira, objetiva justamente a obtenção de um produto eficiente e mais barato. Segundo o coordenador do projeto, o geólogo José Augusto de Lollo, a pesquisa aponta para resultados promissores. “Depois de testar várias misturas à base de cal e de cimento, em diferentes porcentagens, chegamos à mistura ideal: solo com 7% de cimento”, afirma. “Atingimos bom nível de permeabilidade sem consumir muito material.”
Lollo explica que o material, desenvolvido com a participação de dois alunos de mestrado – os engenheiros civis Rosemeire Aparecida Ventura Ribeiro, graduada pela Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), e Rodrigo Pelho Rizzo, formado pela FE de Ilha Solteira, em 2001 –, levará mais três anos para ser obtido. “Ele será 80% mais barato que os materiais geossintéticos usados atualmente. Outra vantagem é que a degradação natural da nossa mistura não agride o meio ambiente”, afirma.
Como o produto terá baixo custo e fácil manuseio, vai beneficiar principalmente empresas de pequeno porte e prefeituras na construção de barreiras de proteção em aterros e lagoas de resíduos. O geólogo salienta que este estudo é pioneiro por enfocar solos brasileiros. “Diferente do de outros países, o solo do Brasil é arenoso e não possui argilas de alta atividade, o que obriga o uso de materiais adicionais”, explica.
Em relação à cal, também testada, o cimento apresentou a vantagem de ser mais durável. Pesquisas indicam que a mistura de solo e cimento dura dezenas de anos, enquanto a combinação solo e cal começa a degradar após um ano. “Na segunda fase da pesquisa, para a qual já foram solicitados recursos da FAPESP, vamos estudar a capacidade do material de reter contaminantes, tais como o cobre e o cromo”, conclui Lollo.

(L.L.)