Fapesp avalia ciência e tecnologia
Estudo conclui que metade da produção científica nacional está em São Paulo

No ano em que completa 40 anos de existência, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) lança o relatório Indicadores de Ciência, Tecnologia e Inovação em São Paulo – 2001. Publicado em maio último, o material traz dados e análises sobre o desenvolvimento científico no Estado. Com 500 páginas e 11 capítulos, a obra enfoca vários elos da cadeia de produção científica e tecnológica: da educação básica e superior à produção científica e os impactos econômicos da ciência e da tecnologia. “A Fapesp já havia publicado um primeiro volume de Indicadores, com dados até 1995. Esta nova edição – que abrange o período entre 1995 e 1999 – além de enfocar o Estado de São Paulo, traz dados comparativos que dão conta da situação brasileira no contexto internacional”, aponta o diretor presidente do conselho técnico-administrativo da Fapesp e coordenador geral da pesquisa, Francisco Romeu Landi.
Segundo o documento, o Brasil é o País da América Latina que mais investe em pesquisa e desenvolvimento. Em 1999, por exemplo, foram U$ 6,5 bilhões, ou seja, 0,87% do Produto Interno Bruto (PIB). O México, que está em segundo lugar nesse ranking, gasta U$ 1,382 bilhão; e a Argentina, terceira colocada, U$ 1,321 bilhão. O índice brasileiro equipara-se aos de países como a Itália (1%) e a Espanha (0,9%), mas está muito abaixo do japonês (3,1%), do americano (2,7%) e do sul-coreano (2,5%). “Há dois aspectos nessa questão, um perverso e outro otimista”, interpreta o coordenador.

INVESTIMENTOS
Pelo ângulo negativo, é possível observar que os investimentos estão muito concentrados em alguns países, como os EUA, que, sozinhos, aplicam quase a metade do que é investido no mundo em pesquisa. “Estamos no fim da fila, muito atrás do Japão, da França, da Inglaterra e da Alemanha”, avalia Landi. Mas há um lado otimista. “O Brasil está em franco progresso científico, criando formas eficientes de captar recursos do setor privado”, analisa. A tendência, sinaliza, é que as indústrias brasileiras tornem-se, cada vez mais, competitivas. “Por enquanto, contudo, o setor privado é responsável por 30% dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento, enquanto o setor público (estadual e federal), arca com a maior parte desses custos.”
O Estado de São Paulo, segundo o diagnóstico, é responsável por 50% da produção científica brasileira e desempenha papel fundamental no contexto nacional, já que foi a origem de 65% das patentes nacionais registradas, concentra 39% dos investimentos em P&D (2,5 bilhões/ano) e responde pela metade do valor das importações de tecnologia (U$ 1 bilhão). “As pesquisas desenvolvidas pelas universidades públicas paulistas contribuem para que o Estado mantenha-se nessa posição de liderança”, diz o diretor da Fapesp, que lembra a importância da UNESP nesse conjunto. “Pelo fato de ela estar situada em cidades do interior, ajuda a difundir a infra-estrutura de pesquisa, laboratórios e recursos humanos no território estadual”, argumenta Landi.

Dois professores da UNESP coordenaram pesquisas que integram o relatório: a matemática Maria Aparecida Viggiani Bicudo, professora do Programa de Pós-Graduação em Educação Matemática do Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE), do campus de Rio Claro, que atuou no tema “Educação Superior: Graduação e Pós-Graduação”; e o economista João Furtado, professor de Departamento de Economia da Faculdade de Ciências e Letras (FCL) da UNESP, campus de Araraquara, que coordenou as pesquisas sobre “Balanço de Pagamentos Tecnológicos e Propriedade Intelectual”.

HEGEMONIA
Maria Aparecida Viggiani Bicudo destaca que, entre 1989-1998, o Estado de São Paulo manteve sua posição hegemônica no ensino superior, absorvendo aproximadamente 32% das matrículas desse nível de ensino. “É politicamente relevante analisar a distribuição dessas matrículas por dependência administrativa das instituições. Em São Paulo, as Universidades Estaduais e Federais somaram 11,3% dos alunos ingressantes, enquanto as municipais reuniram 5,8% e as particulares, 81,9%”, observa.
Outra informação importante da docente do IGCE é que, no período estudado, houve aumento no número de alunos que concluem a graduação, mais acentuadamente nas instituições particulares. “É oportuno lembrar que a política pública federal, em 1995, empenhou-se em diminuir a evasão no ensino superior”, diz a professora. “Cabe considerar o esforço que a UNESP fez nesse sentido, o qual, provavelmente, resultará em melhores percentuais de alunos formados em 2002 do que em 1994”, complementa.

O estudo coordenado por Furtado, por sua vez, tem como objetivo medir as relações tecnológicas do Brasil com o mundo, dando ênfase para o Estado de São Paulo. O capítulo da publicação revela um dado importante sobre a balança comercial brasileira: entre 1989 e 1999, as exportações de produtos tecnológicos aumentaram 3,4% a cada ano, enquanto as importações desses mesmos produtos cresceram 10,4% anualmente. “O País, a despeito de ter boa estrutura industrial, foi ineficiente em repassar a tecnologia dos centros de pesquisa ao sistema produtivo”, conclui o economista da FCL.
O estudo indica também que o valor médio dos produtos importados é de US$ 0,55/quilo, enquanto o valor médio dos exportados é de US$ 0,22/por quilo. Furtado avalia, portanto, que o Brasil, ao contrário de países desenvolvidos, não agrega valor à sua riqueza. “O País aumentou a sua produtividade, porém, apenas replicou, em boa parte, o que outros países desenvolveram”, conclui.
Para transformar esse quadro, Furtado defende uma maior articulação entre os vários setores que compõem o sistema tecnológico. “É preciso que os atores econômicos, por exemplo, decidam usar a tecnologia desenvolvida no País e deixem de importar máquinas sem nenhum critério”, afirma. “É necessário estimular as empresas a exportar produtos industrializados, e um dos caminhos para isso é a simplificação dos processos burocráticos”, conclui Landi, da Fapesp.


Ingressantes e concluintes no Ensino Superior, por
dependência administrativa – Estado de São Paulo, 1991-1995 e 1994-1998

Coortes/Dep.Adm
1991-1995
Ingressantes
1991 (a)
Concluintes
1995 (b)
%
b/a
Federal
1.057
799
75,0
Estadual
14.361
9.830
68,4
Municipal
9.907
6.390
64,5
Particular
133.100
75.076
56,4
Total
158.425
92.095
58,1
1994-1998
1994 (a)
1998 (a)
b/a
Federal
1.335
994
74,5
Estadual
15.795
11.388
72,1
Municipal
11.670
4.847
41,5
Particular
144.449
91.361
63,2
Total
173.249
108.590
62,7