MEMÓRIA
Som divino
Projeto restaura partituras do barroco nacional
Coro e órgão da Catedral da Sé, Mariana, MG. (Reprodução).Um pesquisador sobre a história da música nacional que tivesse a capacidade de viajar no tempo certamente programaria uma parada no Brasil-Colônia, especificamente em alguma pequena igreja do interior de Minas Gerais ou do Rio de Janeiro. Lá, entre os fiéis, ouviria ecoar no templo o som de músicas sacras executadas, ali mesmo, pelo coral da igreja. É claro que isso não passa de um devaneio, mas a oportunidade de conhecer obras ligadas à origem da música brasileira torna-se hoje mais próxima graças ao projeto Acervo da Música Brasileira – Restauração e Difusão de Partituras. “Essas músicas são documentos históricos que representam épocas da vida brasileira”, qualifica o musicólogo Paulo Castagna, professor do Instituto de Artes (IA) da UNESP, câmpus de São Paulo, e coordenador do projeto, patrocinado pela Petrobrás, que resgata obras inéditas guardadas no Museu da Música de Mariana, MG, desde o período colonial até o começo do século XX.
Já foram investidos R$ 700 mil na produção de 3 CDs com músicas religiosas inéditas do período Barroco. Foi a Fundação Cultural e Educacional da Arquidiocese de Mariana, responsável pelo Museu, que conseguiu financiamento junto à Petrobrás e negocia com a gravadora Paulus o lançamento comercial desses discos. Junto com outros seis pesquisadores, Castagna, uma das maiores autoridades nacionais em história da música brasileira, trabalha na recuperação de partituras do Museu. “Ele tem um dos poucos acervos de música religiosa do País – cerca de 2 mil obras de 35 cidades”, contabiliza.

DETERIORAÇÃO
Castagna e os três Cds: épocas da vida brasileira. (Foto: Noélia Ipê).Assim, o público terá acesso às 13 músicas escolhidas pelos pesquisadores para compor essa primeira coleção. Segundo Castagna, foram selecionadas obras cujos manuscritos estavam em condições de ser editados – alguns deles estão muito deteriorados. “Outro critério considerado foi a beleza da música para o ouvinte atual”, acrescenta Castagna.
A organização foi feita por temas, segundo o musicólogo, para oferecer ao público, ao mesmo tempo, música e informação. Pentecostes corresponde ao primeiro volume; Missa é o segundo; e Sábado Santo, o terceiro. “Entre as mais belas obras, está Missa em Mi Bemol, de autoria do carioca José Maurício Nunes Garcia (1767-1830), que integra o segundo volume”, cita Castagna, que realiza pesquisas no Museu há mais dez anos.
O primeiro volume foi interpretado pelo Coral de Câmara da Escola de Música da UFMG e músicos convidados, sob a regência de Afrânio Lacerda; o segundo, pelo Coral de Câmara São Paulo e Orquestra Engenho, sob a regência de Naomi Munakata; e o terceiro, pelo grupo Calíope, sob a regência de Júlio Moretzsohn. Coube ao regente Vítor Gabriel de Araújo, professor do IA, participar da produção dos discos. Até 2003, serão lançados outros seis CDs, com livros das respectivas partituras. Um site (www.mmmariana. com.br) permitirá o download das partituras. “Assim, obras antes confinadas no Museu serão amplamente divulgadas”, avalia Castagna.
Segundo o musicólogo, um dos ganhos obtidos com o projeto foi a criação de uma metodologia científica para recuperar e catalogar obras musicais. Foi isso o que permitiu ao grupo restituir a única obra encontrada de um brasileiro sobre o qual não se sabe nem a origem nem o período vivido: João de Araújo Silva. “A parte do segundo violino foi perdida. Tivemos que reconstituí-la. Desse trabalho resultou Gradual do Espírito Santo, incluída no primeiro CD, uma das músicas mais bonitas da seleção”, conclui.

Lara Lima

ESPETÁCULO
Modernismo sobe ao palco
Ópera cênica recria atmosfera da Semana de 22

Competência: Martha Herr no papel da pintora Anita Malfati. (Foto: Hélcio Toth).Em comemoração aos 80 anos da Semana de Arte Moderna, que ocorreu em março de 1922, em São Paulo, o Serviço Social do Comércio (Sesc) da Capital promove a ópera cênica 22 Antes Depois, uma livre interpretação do espírito modernista que inspirou alguns dos mais importantes artistas brasileiros do início do século passado. De autoria e direção conjuntas de Arrigo Barnabé, Guto Lacaz e Tim Rescala, o espetáculo conta com 20 profissionais, entre cantores, músicos e atores, que trazem à tona os fatos mais marcantes da Semana de 22. Chefe do Departamento de Música do Instituto de Artes (IA) da UNESP, câmpus de São Paulo, Martha Herr tem papel de destaque como única cantora da ópera – é a soprano que atua ao lado de três tenores. “Uma amiga me indicou a Martha, que mostrou ser a cantora ideal para o papel, devido à sua familiaridade com a música contemporânea”, diz Arrigo Barnabé.
Um dos episódios da Semana recriados pela peça é a polêmica exposição de Anita Malfati, que provocou reações exaltadas da classe artística, principalmente do escritor Monteiro Lobato. Martha interpreta a pintora, contracenando com músicos e atores. “Foi muito bom ter esse intercâmbio – raro para uma cantora lírica. Por isso, este foi o trabalho em teatro de que mais gostei de participar”, diz.

TRABALHO VERSÁTIL
O logotipo da peça.O repertório do espetáculo reúne de samba a música erudita. “Não fosse a sólida formação musical obtida no IA, não conseguiria realizar um trabalho versátil como este”, afirma o percussionista Rodrigo Foti, formado há três anos pelo curso de Música da UNESP, na habilitação de instrumento percussão.
O show dura aproximadamente 1h30 e apresenta cenários e adereços que surpreendem os espectadores, como pianos que giram no palco, enquanto são tocados pelas admiradoras de Chopin. Entre os principais personagens estão Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. “Di Cavalcanti e Glauber Rocha dão as boas vindas ao público e, ao final da peça, encaminham o divertido desfecho: dedos de chocolate são distribuídos à platéia, que é chamada a participar de um banquete antropofágico”, comenta Barnabé.
Com esse bom humor e uma linguagem moderna, a peça remete constantemente à busca de uma identidade nacional – tema que muito inquietou os modernistas da época e que permanece atual. Três alunas de piano do IA participam do espetáculo: Juliana Cerimele Assis, 20 anos, Sheila de Melo Batista e Inara Barreto Ferreira, ambas com 18, todas segundanistas do curso de Música. “É uma experiência incrível ter contato com profissionais tão competentes, como Arrigo Barnabé e Martha Herr”, diz Juliana.
22 Antes Depois esteve em cartaz na Capital paulista entre 28 de fevereiro e 17 de março. A ópera tem roteiro de apresentação em outras seis cidades do Estado, como Araraquara (5 e 6 de abril) e São José do Rio Preto (19 e 20 de abril), municípios em que a UNESP tem câmpus. “A peça é uma autêntica homenagem ao modernismo brasileiro”, conclui a cantora lírica Martha Herr.

Lara Lima