GEOGRAFIA

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Vida cigana

De origem incerta, cercado de mistério e preconceitos e impiedosamente perseguido ao longo dos séculos, o povo cigano faz do planeta a sua pátria

Oscar D’Ambrosio

Romênia, 1968: "filhos do vento" (Foto reprodução do livro Gypsies (Aperture), de Josef Koudelka.    ...e, no sexto dia, Deus resolveu criar o Homem. Tomou uma poção de barro, modelou uma estátua e a colocou em um forno. Resolveu então dar um passeio pelo Jardim do Éden e acabou por se esquecer de sua obra. Quando retornou, encontrou a sua criação queimada. Surgiu assim o primeiro homem negro. Resolveu tentar de novo, mas, no meio do cozimento, abriu o forno para espiar e o resultado foi uma figura pálida, o ancestral dos homens brancos. Finalmente, criou um terceiro homem, de barro cozido, no ponto exato, no tom da amêndoa. Surgia assim o primeiro cigano. Deus ficou tão contente com essa criação que o deixou habitar livremente todos os lugares da Terra, para espalhar beleza e alegria a todos os outros povos com que habitou o planeta.

    É com esta história que os ciganos, povo tradicionalmente nômade, conhecido como "filhos do vento", e ligado ao misticismo, à música e alvo de muitos preconceitos – como a prostituição feminina e a ladroagem masculina – contam a sua própria origem, ainda cercada de mistério. "Os ciganos se consideram um povo semita, ou seja, originário da região da antiga Pérsia, e filho de Sem, um dos filhos de Noé, que teria se separado em dois grupos: um, que se dirigiu para o Egito, e outro, para a Índia", diz a geógrafa Solange Guimarães, do Departamento de Geografia do Instituto de Geociências e Ciências Exatas da UNESP, câmpus de Rio Claro. "A antropologia, no entanto, analisando a semelhança do romani, a língua cigana, com o sânscrito, afirma que eles são originários da Índia".

Checoslováquia, 1965. (Foto: reprodução do livro Gypsies (Aperture), de Josef Koudelka.    Autora da tese de doutorado Paisagens & Ciganos, em que estudou como o povo cigano sofreu nas mãos dos alemães, na Segunda Guerra, a pesquisadora, que entrevistou cerca de 30 ciganos, no Brasil e na Argentina, entre descendentes e sobreviventes do Holocausto, conheceu um mundo repleto de dor. "Cerca de 500 mil ciganos foram perseguidos e mortos pelos alemães no período, em campos de concentração ou simplesmente fuzilados e jogados em valas comuns", afirma.

    No universo desse povo, lenda e realidade se misturam. O célebre nomadismo dos ciganos, por exemplo, tem uma explicação mítica, mas ainda desafia os geógrafos. "Conta-se que eles se instalaram em Sind, na Índia, onde eram muito felizes. Após um conflito, porém, os muçulmanos os expulsaram, destruindo toda a cidade. Por isso, eles foram obrigados a vagar de uma nação para outra."

    As razões do nomadismo, no entanto, parecem ser mais complexas. Sabe-se, por exemplo, que os ciganos já estavam na Europa Ocidental em torno do século XV. "Como os europeus imaginavam que eles vinham do Egito, foram batizados por nomes originários daquele país, como gipsy, em inglês; gitan, em francês e gitano, em espanhol", diz a docente do IGCE.Checoslováquia, 1967. (Foto: reprodução do livro Gypsies (Aperture), de Josef Koudelka.

    O preconceito e a dificuldade de fixação numa região teria vários motivos. Devido à pele escura, vista na Europa de então como sinal de inferioridade e de impureza, os ciganos eram confundidos com os turcos, perseguidos por serem inimigos da igreja. Esta, por sua vez, condenava a prática da cartomancia e da quiromancia pelas mulheres ciganas. As corporações de ofícios medievais também tendiam a excluir os ciganos, porque eles eram concorrentes no artesanato, sobretudo no trabalho com metais. "Surgem, assim, numerosas lendas para denegrir os ciganos, como a que afirma que eles são descendentes de Caim, o assassino de Abel", afirma Solange.

    Houve até aqueles que acreditavam que os ciganos teriam fabricado os pregos usados para crucificar Cristo. "Do preconceito para a marginalidade e a discriminação foi um passo. Eles foram escravizados na Sérvia e na Romênia, queimados pela Inquisição e discriminados pela teoria da pureza racial do nazismo", explica a pesquisadora.

    Os ciganos somam hoje cerca de 12 milhões de indivíduos, um milhão deles no Brasil. O primeiro a chegar por aqui foi Joan de Torres, degredado para o Brasil pelo rei português D. Sebastião, em 1574. "Nos séculos seguintes, graças ao comércio, alguns prosperaram e, no início do século XIX, algumas das casas mais bonitas do Rio de Janeiro, então capital do Brasil, eram os sobrados dos ciganos", conta Solange. Novos grupos vieram para o Brasil nos anos 1920 e 1930, quando começam a surgir no Velho Continente as políticas raciais de eugenia.

 

Escravizados na Sérvia e na Romênia, queimados pela Inquisição e perseguidos pelo nazismo,
 eles tomaram a proteção da natureza como filosofia de vida

 

Chescoslováquia, 1967. (Foto: reprodução do livro Gypsies (Aperture), de Josef Koudelka.    A cidade de Campinas é considerada a Meca Cigana, em toda a América do Sul. Mas há outras cidades brasileiras com muitos ciganos, como Rio Claro, Americana e Bauru, no Estado de São Paulo, e Contagem, em Minas Gerais. "Eles se dedicam, nessas localidades, a atividades como a metalurgia, a criação de cavalos e o garimpo."

    A partir de 1999, os ciganos residentes no Brasil deram um importante passo contra o preconceito. Passaram a contar com um representante na Comissão Especial de Apuração do Patrimônio Nazista no Brasil. "Isso abre a possibilidade de lutarmos pela devolução dos nossos bens tomados pelo nazismo", diz Cláudio Domingos Iovanovitch, presidente da Associação de Preservação da Cultura Cigana, entidade fundada, em 1996, por famílias de origem cigana com residência fixa em Curitiba, PR, há mais de 60 anos.

Espanha, 1974. (Foto: reprodução do livro Gypsies (Aperture), de Josef Koudelka.    A geógrafa da UNESP estudou profundamente os hábitos ciganos e aponta os estereótipos que freqüentemente recaem sobre eles. "Nem todas as mulheres são fúteis, como a Carmen da ópera de Bizet, nem os homens galãs, embusteiros ou exímios cavaleiros", diz. "As prostitutas são banidas do grupo e os decotes, quando existem, ocorrem porque a sensualidade para os ciganos não está nos seios, mas nas pernas, vistas como a parte mais próxima da vida, pois conecta a genitália com a terra, fonte sagrada da vida de um cigano."

    Mesmo aculturados, segundo Solange, os ciganos guardam algumas tradições, como ter poucos móveis nas casas, sentar no chão ou em almofadas, passar as tradições para as novas gerações, oralmente, em encontros familiares, e usar roupas coloridas. "O mundo em branco e preto não tem sentido no imaginário cigano. É por meio das cores que eles expressam a alegria de viver", afirma.

    Segundo uma lenda cigana, após criar o homem, Deus reuniu todo os povos do mundo num lindo gramado e deu direito a cada um de escolher o que quisesse. Alguns pediram casas, outros riquezas, enquanto os ciganos nada disseram. Como recompensa, Deus lhes deu o mundo. Daí vem o lema cigano: "A terra é minha pátria, o céu, o meu teto; a liberdade, a minha religião". "Os ciganos têm a proteção da natureza como filosofia de vida. Vêem o planeta como seu lar e, por isso, o preservam", conclui Solange.

 

O fotógrafo

Nascido na Checoslováquia, em 1938, o autor das imagens que ilustram estas páginas, Josef Koudelka, é considerado um dos maiores fotógrafos em atividade, em todo o mundo. As fotos foram feitas entre 1967 e 1975, em vários países da Europa, e publicadas no livro Gypsies, pela Aperture. Vivendo em Paris, França, Koudelka é associado da agência Magnum e publicou, ainda, os livros Exiles (1988) e Chaos (2000).

 

Ninguém toca como eles

A música inconfundível de um povo discriminado

Manifestação artísitca: entre a alegraia e o lamento. (Foto: Reprodução do livro Gypsies (Aperture), de Josef Koudelka.A música é a maior manifestação artística do povo cigano. "O som de um violino cigano é inconfundível. Fica no meio termo entre a alegria e o lamento", diz Solange Guimarães, do IGCE, câmpus de Rio Claro da UNESP. Compositores clássicos de obras para piano, como o húngaro Franz Lizt, no século XIX, e os espanhóis Isaac Albeniz e Enrique Granados, no início do século XX, também sofreram forte influência da música cigana. "A melhor expressão da música cigana, porém, está no som da guitarra e na dança do flamenco", diz a geógrafa. E bons exemplos disso não faltam, como Django Reinhardt, Paco de Lucia e o vencedor do Latin Grammy 2000 de Jazz Latino, Tomatito.

No Brasil, o maior artista de origem cigana é Wagner Tiso, autor, com Milton Nascimento, de Coração de Estudante. Nascido em 1945, em Três Pontas, MG, de mãe de descendência cigana, originária de família iugoslava radicada no Brasil desde a década de 1940, o compositor, tecladista e arranjador aprendeu cedo a conviver com os preconceitos que rondam os ciganos. "Meu sobrenome vem do rio Tisa, que corta a Ucrânia, passa pela Iugoslávia e desemboca no rio Danúbio. Ninguém sabia da nossa origem, no Brasil, porque meus pais, com medo do preconceito, escondiam suas raízes", diz o músico. Em 1972, quando estudava na Europa, Tiso pesquisou as origens perdidas da família. "Cheguei até a acompanhar, por Portugal e Espanha, um grupo cigano de um circo errante", diz. "O resultado dessa viagem só veio a aparecer no CD Baobah, que gravei em 1990 e é o mais cigano dos meus trabalhos", conta.

(O.D.)

 
 
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