Livros
Em defesa da inquietação

Coletânea de ensaios de Anthony Giddens, da Universidade de Cambridge, considera o questionamento intelectual a atividade essencial do sociólogo

Paisagem da Cornualha com pessoas e minas de estanho, de Edward Buna, 1975.    O instigante título do conjunto de ensaios de Anthony Giddens, reunidos no volume Em defesa da Sociologia, sugere com grande força a indagação: necessitará a Sociologia ser defendida?

A resposta a essa pergunta leva o vigoroso intelectual inglês a percorrer um conjunto de temas e questões que se referem ao campo específico da Sociologia, mas que também ultrapassam largamente as fronteiras epistemológicas da disciplina, por meio de incursões ousadas aos territórios da Ciência Política, da Antropologia, e mesmo da Crítica Literária. Esse exercício, perceptível ao longo da leitura dos 14 artigos compilados, nos permite vislumbrar a posição central que o autor confere à Sociologia no contexto das Ciências Sociais.

    No entanto, a atribuição de um estatuto privilegiado à disciplina não implica no ocultamento de suas fragilidades. Ao contrário, essas são postas em evidência já no ensaio inicial, que empresta nome à coletânea. Nele, Giddens confronta claramente as principais acusações dirigidas à Sociologia, sobretudo aquelas que, pelo uso do velho ardil da assimilação das elaborações dos sociólogos ao senso comum, colocam em questão seu próprio fundamento científico. Nesse embate, aquilo que se supõe ser uma debilidade, emerge como elemento de grande força, através da elucidação da natureza generalizante da disciplina e de seu foco analítico, centrado na compreensão das sociedades modernas.

    A verdadeira fraqueza da Sociologia surge em contornos claros ao longo dos ensaios que constituem o livro. Para o autor, a Sociologia padece presentemente, acima de tudo, do mal do empirismo radical, que, ao preterir as pesquisas teóricas mais densas, tem concorrido para a perda da capacidade unificadora das várias ramificações da pesquisa social que a disciplina vigorosamente ostentou ao longo dos anos 1960 e em boa parte dos 1970. O foco mais evidente dessa crítica é a tradicionalmente profícua sociologia norte-americana. Giddens denuncia a exacerbada especialização dos sociólogos norte-americanos, que, ao lado de índices produtivos imbatíveis, apresenta não só o insulamento dos pesquisadores em seus respectivos grupos de pesquisa, mas também uma subutilização da "imaginação sociológica" em função da vigência da, por ele denominada, quantofrenia, ou seja, a elevação da metodologia quantitativa à condição de doutrina. De acordo com esse novo cânone, só é considerado cientificamente válido o conhecimento sociológico que decorra da quantificação.Editora UNESP; R$ 35,00. Desconto de 25% para comunidade unespiana.

    Giddens trabalha a defesa da Sociologia pela postulação de uma posição intermediária entre a atual fragmentação, que é foco de suas objeções, e as generalizações ao gosto do radicalismo político transposto ao campo acadêmico, que ele também rejeita. A proposição de uma criativa estratégia analítica, baseada no conceito de sociedade pós-tradicional, permite vislumbrar a recomposição do objeto próprio da Sociologia, ou seja, as transformações da sociedade contemporânea.

    Finalmente, merece reparo, por destoar do conjunto, a inclusão do artigo final do livro "O Partido Trabalhista e a política britânica", no qual o autor expõe as razões e estratégias de renovação da política inglesa, da quais ele é um dos principais formuladores. Entretanto, essa ressalva não diminui em nada a contribuição de Giddens à necessária defesa da Sociologia. Nesse momento de consensos inabaláveis, ele coloca em relevo um elemento essencial ao ofício do sociólogo: a inquietação.

Angelo Del Vecchio é doutor em Ciência Política e professor do Departamento do Antropologia, Política e Filosofia, da Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara – UNESP.
 
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SERVIÇO SOCIAL

MATEMÁTICA

CIÊNCIAS SOCIAIS

Para que valha o escrito

Computadores na educação

 

Mulheres na ferrovia

 

    A relação entre o serviço social e a conquista dos direitos sociais anunciados na Constituição de 1988 é um dos temas mais importantes do Brasil, neste início de milênio. Embora a chamada "Constituição Cidadã" tenha indicado caminhos importantes, muitos passos ainda necessitam ser dados para que os direitos lá enunciados se concretizem. Essa discussão permeia os oito ensaios aqui reunidos, que contribuem decisivamente para a formação profissional dos alunos da área e para os elos entre o Serviço Social e as Ciências Sociais. "Apresentamos a produção científica de alunos e professores do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social, confirmando nossa preocupação em construir um pensamento crítico sobre as principais questões que permeiam a sociedade contemporânea", afirma a assistente social Lilia Christina de Oliveira Martins, coordenadora do programa e editora da publicação. Destaca-se o texto "Um estudo sobre a autonomia em pessoas com deficiências físicas ou mentais", da pedagoga, assistente social e mestre em Educação Especial Valéria Carrijo Tasso Souza. Doutoranda em Serviço Social na FHDSS, ela estuda a participação e a inclusão da pessoa deficiente no mundo do trabalho. "Não se pode estudar essa questão sem levar em conta as características de cada deficiência, principalmente na atual economia globalizada competitiva e produtiva", afirma.

    O uso da informática na educação já despertou numerosos debates. Atualmente, não há mais dúvidas de seus benefícios. A grande questão é como pode ser utilizada na Educação Matemática. Após estudar esse problema por dez anos, os matemáticos Marcelo de Carvalho Borba e Miriam Godoy Penteado, do Instituto de Geografia e Ciências Exatas (IGCE) da UNESP, câmpus de Rio Claro, neste livro, mostram uma série de exemplos sobre o uso de informática com alunos e professores. Também debatem esses temas ligados às políticas governamentais para informática educativa, além de questões epistemológicas e pedagógicas relacionadas à utilização de computadores e calculadoras gráficas em Educação Matemática. "A obra destina-se aos familiarizados com o tema e também àqueles que desejam conhecer melhor os elos entre a informática e a Educação Matemática", afirma Borba, também coordenador da Coleção "Tendências em Educação Matemática", que já conta com quatro livros. "Não se pode simplesmente dizer que a informática resolve os problemas ligados ao ensino e à aprendizagem. Este livro contribui para ampliar aspectos de políticas ligadas à informática, além de ser um estímulo para o aprofundamento em alguns temas mais específicos do cotidiano das aulas de Matemática".

 

 

    O universo dos trabalhadores ferroviários paulistas geralmente é visto como um autêntico Clube do Bolinha, dominado por homens sujos de graxa trabalhando em meio a locomotivas, trens e trilhos. A historiadora Lídia Maria Vianna Possas, coordenadora do Curso de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia e Ciências da UNESP, câmpus de Marília, pesquisou o mundo das mulheres que trabalhavam na Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB) no início do século XX. Verificou que elas se dividiam basicamente em dois grupos: as que vinham de famílias de classe média trabalhavam como telefonistas, datilógrafas e em serviços burocráticos em geral, enquanto as oriundas de famílias menos favorecidas iam para a cozinha, a lavanderia e a faxina. "Como a mulher que trabalhava fora não era considerada mulher de família, o assédio sexual era grande, e as mulheres tinham que ser muito austeras para controlar a sua sexualidade", afirma a autora. Originalmente uma tese de doutorado, o livro estuda o impacto das ferrovias, símbolos do capitalismo e da modernidade, na vida das mulheres do interior de São Paulo, mostrando como elas eram admitidas no trabalho, mas raramente tinham possibilidade de promoção. "Sentindo essa falta de perspectiva diante do eterno estado deficitário da NOB, elas foram se transferindo para outras autarquias ou se tornaram profissionais autônomas", conclui a autora.

Serviço Social & Realidade – Faculdade de História, Direito e Serviço Social da UNESP, câmpus de Franca. Volume 9, número 1, ano 2000; R$ 10,00. Informações: publica@franca.unesp.br Informática e Educação Matemática – Marcelo de Carvalho Borba e Miriam Godoy Penteado; Coleção "Tendências em Educação Matemática"; Autêntica Editora; 104 páginas. Informações: (0xx31) 3423-3022. Mulheres, Trens e Trilhos – Lídia Maria Vianna Possas; Editora da Universidade do Sagrado Coração; 462 páginas; R$ 39,00.