Especial

Milagres da Santa de casa

Descoberta em 1717, a imagem de Nossa Senhora Aparecida atrai à Basílica de Aparecida, todos os anos, 7 milhões de fiéis. Essa devoção transforma o Santuário no maior centro de peregrinação religiosa do mundo, à frente até mesmo do Vaticano.
Oscar D’Ambrosio

    Todo dia 12 de outubro, o município de Aparecida, cidade de 34 mil habitantes localizada a 195 km de São Paulo, transforma-se completamente. Mais de 180 mil romeiros de todo o Brasil, e até do Exterior, entram na Basílica da cidade para venerar, pagar promessas e fazer pedidos à imagem de Nossa Senhora Aparecida – uma das mais de 2 mil denominações, reconhecidas ou não pela Igreja Católica, da Virgem Maria existentes no mundo. Anualmente, a Nossa Senhora colocada no interior do Santuário é visitada por 7 milhões de fiéis, número que coloca a Basílica como o maior local de devoção católica do planeta, à frente mesmo do Vaticano e dos célebres santuários de Lourdes, na França, e de Fátima, em Portugal – que, assim como o de Aparecida, são chamados "marianos", já que voltados para a devoção à Mãe de Jesus. "A devoção à imagem só fez aumentar desde o século XVIII, quando foi encontrada, embora a data da celebração tenha mudado. Seguindo critérios políticos e religiosos, ela já foi homenageada em dezembro, em maio e em setembro", afirma a cientista social e historiadora Martha dos Reis, da Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC) da UNESP, câmpus de Marília.
    A partir de 1980, o feriado foi oficialmente marcado para 12 de outubro, data que mais se aproxima do dia em que a imagem negra, identificada originalmente como a da Imaculada Conceição, foi encontrada por três pescadores, no Rio Paraíba, em 1717. Autora da tese de doutorado "O Culto à Senhora Aparecida: síntese entre o catolicismo oficial e o popular no Brasil", defendida na Faculdade de Ciências e Letras (FCL) da UNESP, câmpus de Assis, em 1999, Martha mostra como a origem do culto à Senhora Aparecida surge em pleno período Colonial, no apogeu da mineração nas Minas Gerais, e como a devoção a ela acabou por unir duas forças: uma tradição de origem popular e uma plêiade de fatores de ordem eclesiástica e política. "Essas vertentes se misturam, e os milagres atribuídos à imagem foram alterados e aumentados de acordo com esse jogo de influências", comenta. "Com a atual exibição da novela A Padroeira, da TV Globo, que mistura ficção e realidade, as fronteiras entre a história verdadeira da imagem e a fantasia popular aumentaram ainda mais", adiciona a supervisora do Museu Nossa Senhora Aparecida, Zilda Augusta Ribeiro, autora de História de Nossa Senhora Conceição Aparecida e de seus Escolhidos.
    Pedro de Almeida e Portugal, Conde de Assumar, governador da capitania de São Paulo e das Minas, foi, indiretamente, o responsável pelo encontro da santa. Em sua viagem de São Paulo para Minas, para combater revoltosos contra a Coroa, em Vila Rica, ele parou em Guaratinguetá. Para atender um desejo do ilustre convidado, três pescadores lançaram as redes no rio Paraíba. Primeiro veio o corpo de uma santa, sem a cabeça. Em seguida, a cabeça. Finalmente, muitos peixes, no que foi considerado um milagre. "Ao que se sabe, um dos pescadores conservou a imagem por aproximadamente 15 anos, até que a entregou a um filho, que fez um oratório, em torno do qual a vizinhança começou a rezar", conta Martha.
    Foi o Padre José Alves Vilela quem conseguiu, em 1745, em Roma, a licença para o culto oficial à imagem e para a construção de uma capela. Para isso, apresentou três milagres atribuídos a ela: velas que se acendiam sem explicação, a ocorrência de tremores no nicho do altar e a audição de estrondos dentro do baú em que a imagem estava. "É possível que, sem o trabalho do padre Vilela, o culto em torno da imagem não tivesse alcançado a projeção que conhecemos", afirma Martha. "Ele tomou para si uma manifestação religiosa doméstica e a desenvolveu numa região repleta de conflitos e sofrimentos, em que o apego à fé pode ser visto como conseqüência natural das dores da vida." Para o historiador Ivan Aparecido Manoel, da Faculdade de História, Direito e Serviço Social (FHDSS) da UNESP, câmpus de Franca, especialista em História das Religiões, o homem não pode ser resumido apenas à produção de bens materiais. "O ser humano tem problemas e angústias para os quais a ciência não tem e nunca terá respostas ou soluções. Esse é o espaço de atuação da religião, da fé e das devoções", afirma.
    No século XIX, com a aparição da Virgem de Lourdes, em 1858, o culto mariano ganhou força. "Até se acrescentou, nessa época, um milagre sobre um negro escravo acorrentado que pediu ao feitor autorização para orar aos pés da imagem. Atendido, o escravo se ajoelha e as correntes se rompem. "Ele surge, provavelmente, das necessidades de a Igreja atender uma população de negros fisicamente massacrados pelos proprietários. Também dissimulava as suspeitas de racismo no clero, já que a Igreja mantinha escravos na época." (Veja quadro na página anterior.)
Foto(Hélcio Toth).
    A partir da proclamação da República, em 1889, quando houve a separação entre a Igreja e o Estado, as autoridades eclesiásticas trouxeram ao Brasil os padres redentoristas alemães, especialmente para disciplinar a devoção popular em torno da Virgem Maria, que estava escapando ao controle da Igreja. "Eles trabalharam desde 1894 para transformar aquela fé num culto mariano organizado, mas enfrentaram resistências", diz Martha. "Houve confrontos com a espontaneidade do culto dos peregrinos, e os redentoristas demonstraram pouca tolerância pelas festas populares que acompanhavam a festa santa."
    Tanto esforço foi recompensado em 1904, quando a imagem, com a aprovação do papa Pio X, recebeu uma coroa de ouro e pedras preciosas doadas pela Princesa Isabel, quando ela esteve em Aparecida, em 1888, e foi designada Rainha do Brasil. Embora houvesse uma recomendação para que a cerimônia ocorresse em 8 de dezembro, dia devotado ao cinqüentenário da definição do dogma da Imaculada Conceição de Maria Santíssima, a coroação ocorreu em 8 de setembro, um dia após a comemoração da Independência. "Isso pode até ser interpretado como saudosismo da monarquia em tempos de República", analisa Martha.
    O fato é que os redentoristas vieram com o propósito de impulsionar a devoção a Maria e, em 1929, encaminharam oficialmente a Roma o pedido para que Nossa Senhora Aparecida se tornasse a Padroeira do Brasil. Começou então uma disputa entre diferentes ordens, pois surgiram outras candidatas ao título de Padroeira, como a Imaculada Conceição (padroeira de Portugal), Nossa Senhora de Guadalupe (padroeira da América Latina) e São Pedro de Alcântara (santo ligado ao imperador brasileiro). Os redentoristas conseguiram mais uma vitória e o papa Pio IX, em 1930, declarou oficialmente Nossa Senhora Aparecida a padroeira do Brasil. A imagem foi levada ao Rio de Janeiro para ser aclamada numa festa cívico-religiosa, que contou até com a presença do presidente Getúlio Vargas. "Foi no mesmo ano da inauguração da estátua do Cristo Redentor, no Corcovado. Nada mais conveniente para o Estado brasileiro do que se declarar católico, mariano e temente a Deus", afirma Ivan Manoel. "Essa foi uma das formas que Vargas encontrou para combater a ascensão do comunismo", completa Martha.
    Uma questão controversa entre o catolicismo popular e o oficial é que, para a Igreja, a devoção aos santos deve ser apenas um meio para encontrar Deus. As imagens são apenas as intermediárias entre o fiel e a divindade, não podendo ser objeto de idolatria. "No catolicismo popular, porém, a imagem em si mesma é vista diretamente como a responsável pelo milagre. Isso constitui o pecado da idolatria, condenado pela Igreja", conta Martha. "Herdamos dos portugueses o mistério de Maria. Ela é um meio de chegar a Jesus Cristo. E toda a devoção que se vê aqui é uma manifestação de fé em Jesus Cristo", explica o cardeal Aloísio Lorschider, arcebispo metropolitano de Aparecida. "Como não temos o que pedir, estamos aqui apenas para agradecer a nossa felicidade", diz Pedro Escaravelo, morador de Arealva, município próximo a Bauru, SP, que visita o santuário pela quarta vez, junto com a esposa Alice. "Venho aqui, dominicalmente, há 12 anos, como romeira e organizadora de grupos", conta, por sua vez, Neuci Maria da Silva, de Suzano, SP.
    A atual Basílica, a terceira igreja dedicada em Aparecida à Nossa Senhora, começou a ser construída em 1955 e teve uma inauguração solene, em 1980, com a decretação, pelo presidente João Figueiredo, do feriado nacional de 12 de outubro. O papa João Paulo II, em pessoa, esteve lá para consagrar o novo templo, com capacidade para comportar 79 mil pessoas em seus 23,2 mil m2. "Queremos divulgar a Boa Nova de Jesus Cristo pelo exemplo da Mãe Aparecida, que sempre viveu em plena sintonia com a Santíssima Trindade e que merece todo o nosso carinho, admiração, respeito e veneração", diz o cardeal Lorscheider. "A devoção à imagem da Basílica é mostra concreta e cotidiana de como o catolicismo oficial, por intermédio dos missionários redentoristas, interagiu com a devoção popular", afirma Martha. "A partir da ação desses padres, a festa de Nossa Senhora de Aparecida perdeu muito de seu caráter de devoção popular e foi transformada em festa devocional, sob o controle da Igreja", conclui Ivan Manoel.

 

Negra de nascença

Tentaram clareá-la, mas a imagem permaneceu escura

    Embora para a Igreja todos os seres humanos sejam iguais, há mais de 500 imagens negras da mãe de Jesus no mundo, como as célebres Virgens de Rocamadour, na França, de Montserrat, na Espanha, e de Halle, na Bélgica. A coloração original de Nossa Senhora Aparecida, por exemplo, foi motivo de debates desde a descoberta da sua imagem, no rio Paraíba, em 1717. Muitos insistem em afirmar que ela era originalmente branca e que o contato das águas do rio com a madeira a teria tornado escura. "Houve até tentativas de ‘embranquecer’ a imagem, em restaurações e com a distribuição de ‘santinhos’ sem a sua coloração original", afirma Martha dos Reis, da FFC de Marília.
    A resposta definitiva veio em 1978, após a imagem ter sido quebrada em 165 fragmentos por um protestante de 18 anos que a retirou do nicho e a deixou cair. "Graças ao relatório de restauração da imagem, realizado pelo Museu de Arte de São Paulo (Masp), sabemos que a imagem de Aparecida é de terracota e foi feita na primeira metade do século XVI, provavelmente por um escultor paulista – e que era escura", diz a historiadora. "Branca, ela nunca foi, mas escureceu ainda mais pela permanência nas águas do rio e pela exposição direta às velas no oratório doméstico em que permaneceu antes da construção da sua capela". Ainda de acordo com Martha, o fato de Nossa Senhora Aparecida ser negra facilita sua aproximação com os fiéis brasileiros. "Primeiro, ela foi objeto de culto dos escravos, depois, das camadas mais humildes da população", concorda a antropóloga Claude Lépine, também da FFC de Marília, que participou da defesa da tese de Martha.

 

Transa sobrenatural

Ex-votos, um agradecimento às divindades

    Uma visita à Sala dos Milagres de Aparecida impressiona. Os devotos deixam todo tipo de objeto. É possível encontrar, lá, partes do corpo humano moldadas em cera, chumaços de cabelo, vestidos de casamento, fardas militares e camisetas de jogadores de futebol. Esses objetos constituem a galeria de ex-votos, expressão oriunda do latim que significa agradecimento a uma graça recebida. "É uma transação com o sobrenatural, que tem suas origens em objetos sumerianos datados de 3 mil a.C.", diz o crítico de arte João Spinelli, do Instituto de Artes da UNESP, câmpus de São Paulo.
    Autor da tese de doutorado "Ex-voto: objeto estético. Uma linguagem brasileira", o docente aponta que, introduzidos no Brasil pelos portugueses, no século XVI, os ex-votos nacionais se distanciaram cada vez mais dos modelos lusitanos. Até o final do século XIX, a pintura e a escultura de madeira foram amplamente utilizadas na execução dos objetos votivos. No século XX, porém, a fotografia progressivamente ocupou a primazia dos devotos e na própria igreja são vendidos moldes em cera de pernas, braços, rins, corações e, principalmente, cabeças. "A cabeça simboliza a dor com os problemas cotidianos e a depressão existencial", explica Spinelli. "Estou deixando esta cabeça para pedir pela minha família e, especialmente, pela saúde do meu filho", disse a paulistana Maria de Lourdes, após depositar seu ex-voto na Sala dos Milagres de Aparecida.

 

Uma e muitas Marias

Os mais de 2 mil nomes da Virgem, mãe de Jesus
N.S. de Fátima. Foto(Reprodução).N.S. do Perpétuo Socorro Foto(Reprodução).    Maria é objeto de devoção da Igreja Católica por, graças ao Espírito Santo, ser virgem e, mesmo assim, ter concebido Jesus. As imagens conhecidas como de Nossa Senhora recebem numerosas denominações: do Bom Parto, dos Navegantes, da Saúde, do Perpétuo Socorro, do Desterro, da Conceição, dos Impossíveis, entre outras. As mais famosas são as de Nossa Senhora de Lourdes, devido às 18 aparições ocorridas naquela localidade francesa, em 1858, e Nossa Senhora de Fátima (Portugal), onde elas teriam ocorrido seis vezes, em 1917. A Virgem Maria, portanto, é uma e muitas ao mesmo tempo. Sob mais de 2 mil nomes, sua devoção se espalha por todo o mundo católico.
N.S. dos Navegantes. Foto(Reprodução).N.S do Bom Parto. Foto(Reprodução).    "Ao contrário de outros países, onde existe a invocação de um dos títulos de Maria como padroeira e catalizadora da devoção popular, como Nossa Senhora de Guadalupe, no México, ou a Virgem de Luján, na Argentina, o católico brasileiro divide sua devoção entre as invocações tradicionais de origem européia, Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora de Nazaré, muito venerada no Norte do País", pondera Ivan Aparecido Manoel, da FHDSS da UNESP, câmpus de Franca. Desde a década passada, cresceu muito no Brasil a devoção a Nossa Senhora Desatadora de Nós, imagem de origem alemã, do século XVIII, que mostra a Virgem desfazendo os nós de uma fita que recebe de um anjo. "Essa veneração é compreensível. Afinal, quem não tem em sua vida muitos nós dos quais desejaria se livrar?", indaga Martha dos Reis, da FFC.
 
 
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Página atualizada em 31/10/2001. Criação: Alexsandro Cardoso Lima e: Priscila B. A. Andreghetto;
Assessoria de Comunicação e Imprensa; Universidade Estadual Paulista - UNESP.