MEMÓRIA

O dia que Araraquara foi existencialista

Instado por um jovem filósofo, há quatro décadas, Jean-Paul Sartre desembarca na pacata cidade para proferir uma concorrida conferência
 

(Fotos Arquivo FCL/Araraquara).    Em 1960, num mundo polarizado pela Guerra Fria, em que os conflitos na Argélia colocavam em cheque o colonialismo francês e a Revolução Cubana acenava para a possibilidade de uma alternativa antiimperialista, o filósofo francês Jean-Paul Sartre, acompanhado de sua companheira Simone de Beauvoir e do escritor Jorge Amado, passou o domingo 4 de novembro em Araraquara, a 300 km da capital paulista. Enquanto parte da cidade, então com pouco mais de 80 mil habitantes, assistia, no estádio local, ao jogo entre a Ferroviária, clube da cidade, e o Santos de Pelé, ele participou de dois eventos. Um deles, organizado por estudantes, no Teatro Municipal, e outro, na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), hoje integrada à UNESP, no qual discorreu sobre filosofia para um seleto público que incluía, entre outros, o atual presidente, Fernando Henrique Cardoso (leia entrevista exclusiva à pág. 2), então professor da USP, sua esposa, Ruth Cardoso, e o crítico literário Antonio Candido. "A visita foi um marco na cidade. Por isso, estamos organizando um evento para lembrar a data", diz o cientista social José Antônio Segatto, diretor da atual Faculdade de Ciências e Letras, câmpus de Araraquara. (Veja a programação no quadro abaixo.)

    O principal responsável pela ida de Sartre e Simone a Araraquara foi o filósofo Fausto Castilho, então docente da FFCL. Foi ele que estabeleceu contato com o existencialista francês, que passou dois meses e meio no Brasil sob o pretexto de participar, em Recife, do I Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária – na verdade, o casal fugia de perseguições políticas devidas à oposição que fazia ao colonialismo francês na Argélia. Por intermédio de amigos, Castilho enviou a Recife uma pergunta a Sartre sobre a conciliação entre existencialismo e marxismo exposta em Crítica da Razão Dialética, publicado naquele ano. Depois, reforçou a indagação por telefone, com Sartre já no Rio de Janeiro e, finalmente, a realizou pessoalmente, em São Paulo. "Ele me disse que a pergunta era complexa e que só poderia respondê-la pessoalmente, numa conferência. Convidei-o, então, a ir para Araraquara – e ele aceitou na hora", conta.
 

Simone descontente. E a igreja, apavorada

    Simone de Beauvoir e Jorge Amado, no entanto, não encararam a viagem com tanto entusiasmo. "Eles achavam que Sartre, então no auge de sua popularidade, não deveria ir a uma faculdade com apenas dois anos de existência, no Interior, e a convite de um jovem professor de 31 anos como eu", recorda Castilho. "De fato, Simone não estava nada interessada em conhecer os intelectuais brasileiros", atesta o filósofo José Aluysio Reis de Andrade, que, à época, era professor na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, de São José do Rio Preto, hoje também integrada à UNESP.    Então aluna do professor Castilho, a historiadora Anna Maria Martinez Corrêa, atual coordenadora do Centro de Documentação e Memória (Cedem) da UNESP, sediado em São Paulo, lembra como a visita de Sartre movimentou Araraquara. "A ligação de Sartre com a esquerda aterrorizava a Igreja Católica local, que realizou pregações pelo rádio contra o filósofo. Foi o bastante para o evento chamar a atenção de todos", recorda.

Sarte (centr0, entre Simone e Amado.    Sartre, Simone e Jorge Amado foram de São Paulo para Araraquara numa Kombi cedida pela FFCL. Pernoitaram em Louveira, na fazenda Conceição do Barreiro, da família Mesquita, proprietária do jornal O Estado de S. Paulo. "Como Fidel Castro ainda não declarara Cuba um país comunista, o jornal apoiava a Revolução e cobriu toda a visita de Sartre, que era favorável ao movimento revolucionário cubano", comenta Castilho.

    Já em Araraquara, antes de proferir a palestra, Sartre e Simone tiveram um encontro com estudantes e trabalhadores rurais no Teatro Municipal. Fernando Henrique Cardoso, auxiliado pelo crítico literário Antonio Candido, realizou a tradução simultânea do evento. "O teatro estava lotado. Fizemos a tradução, mas Sartre falava rápido e a complexidade de seu raciocínio dificultou nosso trabalho", recorda Candido. Ao final da tarde, com a presença de cerca de 100 pessoas, Sartre finalmente respondeu, na FFCL, à indagação de Castilho. "Sua fala girou em torno das colocações que fez em Crítica da Razão Dialética", comenta o docente da Unicamp. "E ela é importante por ser a única vez que Sartre falou sobre filosofia em seu périplo por mais de dez cidades brasileiras", salienta Andrade. A palestra acabou sendo publicada, em forma de livro, há 15 anos, com o título Sartre no Brasil – A conferência de Araraquara, em co-edição da Editora UNESP e Paz e Terra.

    Além da "Conferência de Araraquara" – como ficou conhecida a passagem de Sartre pela UNESP –, o domingo 4 de novembro é lembrado na cidade pela vitória por 4x0 da Ferroviária sobre o poderoso Santos. "Os torcedores saíram pelas ruas comemorando, e Sartre, ao vê-los, pensou que aquela algazarra se devia à sua presença", diverte-se Andrade.

Oscar D’Ambrosio
 

Evento comemora data

Na programação, exposição, teatro e debates

    Para lembrar a visita de Jean-Paul Sartre a Araraquara, em 1960, a FCL, junto com a Secretaria Municipal da Cultura e Fundação de Arte e Cultura (Fundart), promove dois eventos. Dia 4 de setembro, será inaugurada uma exposição de fotos da conferência de Sartre e realizada a leitura dramática da peça Entre Quatro Paredes, do filósofo, com direção de Anísio Ribeiro. No dia 12, a célebre "Conferência de Araraquara" será debatida por José Antonio Segatto, José Castilho Marques Neto e José Aluysio Reis de Andrade, da FCL, e Fausto Castilho, da Unicamp. Também estará à venda o livro Sartre no Brasil – A conferência de Araraquara. Os eventos ocorrerão na Sala Jean-Paul Sartre, na Casa da Cultura Luiz Antonio Martinez Corrêa. Rua São Bento, 909. Informações: (0xx16) 201-5179.

 

Platéia de notáveis


    Ruth Cardoso
, socióloga e primeira-dama 
 

    Fernando Henrique Cardoso, sociólogo e atual presidente do Brasil

    Bento Prado Jr., filósofo da USP 

    Jorge Nagle, ex-reitor da UNESP 

    Miriam Moreira Leite, educadora da USP   

    Dante Moreira Leite, psicólogo, já falecido
 
 

 
Antonio Candido, professor aposentado de Teoria Literária da USP    

Gilda Mello e Souza, ensaísta, professora de Estética da USP    

Nilo Scalzo, jornalista    

Michel Debrun, francês, professor-visitante da USP    

José Celso Martinez Corrêa, dramaturgo, criador do Teatro Oficina    

Dante Tringalli, professor aposentado de Latim da UNESP    

José Aluysio Reis de Andrade, professor aposentado de Filosofia da UNESP
 

Não ao Nobel

Filósofo alegou "razões pessoais e objetivas"

 
    Filósofo, romancista, dramaturgo, poeta e jornalista, o francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), dentro dos princípios existencialistas, acreditava que o ser humano era dono do próprio destino e definia a vida por um projeto pessoal e pelas próprias ações. Essa visão, próxima à do filósofo alemão Heidegger, sofreu transformações devido à progressiva aproximação do intelectual francês com o marxismo, o que o levou a participar de diversos movimentos reivindicatórios ao lado de estudantes, camponeses e operários. Ao ser cogitado para receber o Prêmio Nobel de Literatura de 1964, Sartre enviou carta à comissão, recusando a láurea "por razões que me são pessoais e por outras, mais objetivas". Nomeado vencedor, nega-se a receber o prêmio.

 

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Página atualizada em 29/09/2001. Criação: Alexsandro Cardoso Lima; Assistente: Priscila B. A. Andreghetto;
Assessoria de Comunicação e Imprensa; Universidade Estadual Paulista - UNESP.