Jornal da UNESP JULHO-AGOSTO 2001 - ANO XVI - Nº 158


Especial

O planeta pede água

A crise é mundial: 20 países exauriram suas reservas e a cada 15 minutos 500 pessoas morrem de sede ou por beberem de fontes contaminadas. No Brasil, onde o quadro é igualmente preocupante, especialistas alertam: é preciso poupar e garantir com rigor a qualidade do precioso líquido

Oscar D’Ambrosio

Foto(AGB Photo Library).    A água – ou a falta dela – foi apontada, pelo governo federal, como a grande vilã desta ameaça de apagão que paira sobre nossas cabeças, sobretudo de quem vive nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do País. A carência de água – estamos falando, agora, claro, de água potável –, no entanto, ultrapassa de muito a questão energética e, num certo sentido, a antecede. Afinal, produz-se energia elétrica sem a existência de água, recorrendo-se a usinas termelétricas, movidas a gás ou a energia nuclear. Mas não se produz água – em outras palavras, as reservas de água do planeta são finitas, não renováveis e estão cada vez menores. "Estima-se que 400 crianças e 100 adultos morrem a cada 15 minutos no mundo devido à falta ou à má qualidade da água", alerta o médico veterinário Luiz Augusto do Amaral, da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV) da UNESP, câmpus de Jaboticabal. "Por isso, um poço de água potável valerá em breve o que valia um poço de petróleo nos anos 70."
    O volume total de água na Terra é de 1,35 bilhão de km3, mas 97% está nos oceanos e mares – portanto, salgada e imprópria para consumo. Dos 3% que restam, 2% está armazenada nas geleiras. "Resta apenas 1% de água disponível para uso, armazenada nos lençóis freáticos, subterrâneos, lagos, rios e na atmosfera", diz Amaral, que é também um dos coordenadores do Projeto Acquaunesp.
    Estima-se que onze países da África, como o Egito, e nove do Oriente Médio, como o Kuweit, praticamente não tenham mais água. É crítica também a situação de México, Hungria, Índia, China e Tailândia. "Embora o Brasil tenha uma posição privilegiada, com 8% da água potável do mundo, a distribuição dessa riqueza é desigual: os 80% concentrados na Amazônia abastecem 5% da população do País, enquanto os 20% restantes atenderiam 95% da população", explica a micro-bióloga Sâmia Maria Tauk-Tornisielo, do Centro de Estudos Ambientais, unidade complementar da UNESP, câmpus de Rio Claro, especialista em wetlands, processo que possibilita a reciclagem de águas contaminadas em meios pantanosos, e autora de trabalhos sobre qualidade de água na Bacia do Rio Corumbataí, próxima a Rio Claro.
 

COMBATE À ESCASSEZ

Bonotto: poços com contaminação radioativa. Foto(Amâncio Chiodi).    O fato de ter regiões com abundância de água, como a Amazônia e o Pantanal, e grandes rios subterrâneos, como o Aqüífero Guarani, na região Sul/Sudeste, leva, segundo o engenheiro civil Tsunao Matsumoto, da Faculdade de Engenharia, câmpus de Ilha Solteira, o País como um todo a realizar pouca coisa para combater a escassez de água. "No Nordeste, principalmente na região semi-árida, existe maior preocupação com a água. Aproveita-se toda fonte possível e imaginária", conta o docente, que integra o Acquaunesp. "Lá se armazena água de chuva, são feitas barragens subterrâneas, a água salobra é dessalinizada e os mananciais, protegidos para fins de abastecimento."
    Com seus 50 mil km3 de água doce – suficientes para abastecer o mundo todo, por dez anos –, o Aqüífero Guarani, que se estende por 1,2 milhão de km2 e abrange parte da Argentina, Paraguai e Uruguai e os Estados de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, é o objeto de estudo do físico Daniel Marcos Bonotto, do Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE), câmpus de Rio Claro. "Após nove anos de trabalho de campo, encontrei, em alguns poços da região, teores excessivos de elementos radioativos, associados a câncer pulmonar e estomacal", diz o docente. "Essa contaminação é motivada por fatores geogênicos, naturais, ligados a formações geológicas."
    Após analisar 80 poços em 70 municípios, Bonotto concluiu que a situação não é alarmante, mas exige cuidados. "No geral, a água apresenta boas condições. Mas é preciso garantir o controle dos efluentes para assegurar a qualidade de toda essa água", explica. "O nível de urânio encontrado foi baixo, mas o de rádio, com meia-vida de 1.622 anos, é altíssimo. Está presente em alguns poços com valores até 20 vezes acima do recomendado pelo Ministério da Saúde."
    Por isso, Bonotto, coordenador do Laboratório de Isótopos e Hidroquímica do IGCE, onde foram analisadas as amostras de água do Aqüífero Guarani, alerta para a necessidade de pesquisas bem detalhadas antes de utilizar essas águas subterrâneas. "Recomendo um controle radiométrico efetivo por parte dos órgãos sanitaristas responsáveis pela distribuição de água à população", diz.
 

APOCALIPSE NO TIETÊ

    Situação semelhante é apontada pela geógrafa Maria de Lourdes Conte e o já falecido engenheiro agrônomo Paulo Rodolfo Leopoldo, da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA), câmpus de Botucatu, no livro Avaliação de Recursos Hídricos: Rio Pardo, um exemplo, recém-lançado pela Editora UNESP. Eles concluem, após a análise da Bacia Experimental do Rio Pardo, que abrange os municípios de Botucatu e Pardinho, localizados na região Centro-Sul do Estado de São Paulo, que essas águas são satisfatórias durante grande parte do ano. "Mas são necessárias práticas conservacionistas no uso de fertilizantes e no manejo do solo, para minimizar as perdas de nutrientes", afirma Maria de Lourdes.
    Pesquisadora dos valores atribuídos aos rios pela população, a geógrafa Solange de Lima Guimarães, do IGCE, acredita que a população brasileira não tem ainda uma visão clara da realidade das águas nacionais. "A abundância de água é ilusória. Quantidade não significa qualidade. Basta ver a situação apocalíptica do Rio Tietê próximo a cidades como Cabreúva e Salto", afirma. "A qualidade da água precisa ser mais discutida com a sociedade", concorda o engenheiro mecânico Herman Voorwald, da Faculdade de Engenharia, câmpus de Guaratinguetá, coordenador de um projeto inovador em controle de qualidade de água em Potim, SP.

Distribuição da água no planeta

Toda a água
Fonte: Atlas do Meio Ambiente/WWF. Gráfico(Priscila B. A. Andreghetto).

Água doce
Fonte: Atlas do Meio Ambiente/WWF. Gráfico(Priscila B. A. Andreghetto).

Água doce superficial de fácil acesso
Fonte: Atlas do Meio Ambiente/WWF. Gráfico(Priscila B. A. Andreghetto).

Em síntese, a situação das águas brasileiras, embora ainda confortável, alcança níveis críticos quanto à manutenção de alguns ecossistemas. "Os rios próximos às cidades estão contaminados por resíduos industriais e esgotos, enquanto as atividades de agropecuária e mineração, com mercúrio, trazem conseqüências diretas e indiretas ao meio ambiente e suas populações", diagnostica Solange.
 

PARÂMETROS FÍSICOS

    Para avaliar a qualidade da água, são determinados 33 parâmetros físicos, químicos e microbiológicos, analisados em laboratório. "Se o tratamento de esgotos é fundamental para as cidades, no campo a maioria das fontes utilizadas para bebida e produção de leite estão contaminadas com coliformes fecais. Isso pode gerar enfermidades de veiculação hídrica e má qualidade do leite", aponta Luiz Augusto do Amaral, da FCAV, especialista em qualidade de água no meio rural.
    As principais doenças relacionadas à ingestão de água contaminada são cólera, disenteria amebiana, disenteria bacilar, febre tifóide e paratifóide, gastroenterite, giardíase, hepatite infecciosa, leptospirose, paralisia infantil e salmonelose. Por contato com água contaminada, pode-se contrair escabiose (sarna), tracoma, verminose e esquistossomose. Finalmente, por meio de insetos que se desenvolvem na água, dengue, febre amarela, filariose e malária. "A falta de água potável, a contaminação química e a veiculação dessas doenças por meio hídrico geram uma preocupação mundial", constata mais um integrante do Projeto Acquaunesp, o químico Ederio Bidoia, do Instituto de Biociências (IB), câmpus de Rio Claro.
    Cloro, flúor, cal e sulfato de alumínio são usados no processo de tratamento de água, respectivamente, para matar bactérias e microorganismos, reduzir cáries dentárias, corrigir o pH da água e agregar as partículas de sujeira. "Mas há que se ter cautela", adverte o toxicologista Igor Vassilieff, do Centro de Assistência Toxicológica (Ceatox), unidade auxiliar da UNESP, sediada no IB, câmpus de Botucatu. "O sulfato de alumínio, por exemplo, se usado em excesso, pode levar ao retardo mental, principalmente de idosos e crianças". Alertado, o Ministério da Saúde começa a orientar outras formas de precipitar as águas das nascentes, usando filtros, por exemplo."
    Para avaliar a importância da água para o organismo humano, basta constatar que uma pessoa pode passar cerca de 28 dias sem comer, mas não resiste a três dias sem água. "A água é a seiva do planeta, e o futuro de qualquer forma de vida depende da sua preservação e do respeito aos seus ciclos", afirma Sâmia, do Cea. "Ela é vital. Por isso, vale ouro", conclui Solange, do IGCE.
 

Do poço à torneira

Experiência pioneira garante qualidade do líquido
Chumski: cloração automática. Foto(Hélcio Toth).    Enquanto a maioria dos municípios se responsabiliza apenas pela distribui ção da água – do poço até o hidrômetro das residências –, a prefeitura de Potim, cidade de 14 mil habitantes, localizada a menos de 10 km de Guaratinguetá, no Vale do Paraíba, promove uma iniciativa pioneira. Abastecido por quatro poços profundos, o município está empenhado em conhecer a qualidade real da água que consome. Para isso, está implantando o projeto "Desenvolvimento de Metodologia para Gestão em Serviços de Fornecimento e Distribuição de Água para Consumo Humano", com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por meio do Programa de Políticas Públicas. "Como a contaminação pode ocorrer nas tubulações internas das casas ou na própria caixa-d’água, por falta de limpeza, desenvolvemos um sistema que fornece dados eficazes, confiáveis e de baixo custo, que cobre desde o poço até a torneira", diz o autor do projeto, engenheiro Valdir Chumski, da FE/ Guaratinguetá.
    A primeira fase do projeto, de janeiro a junho últimos, envolveu R$ 28 mil e resultou na implantação de equipamentos de informática para dotar o Serviço de Água e Esgotos de Potim (Saep) de melhores condições de trabalho. "As contas de água, antes emitidas após dois dias, passaram a ser emitidas em cinco minutos", aponta o coordenador da empreitada, engenheiro mecânico Herman Voorwald, assessor chefe de Planejamento e Orçamento da UNESP. Também foram colocados três sistemas automatizados de dosadores de cloro, substância que mata as bactérias e microorganismos presentes na água. "Com a cloração, também eliminamos o forte odor que a água tinha", explica.
    O projeto inclui uma segunda fase, com um investimento de R$ 200 mil durante dois anos, ainda não aprovada pela Fapesp, que inclui a coleta e a análise de amostras em 145 residências da cidade. "Observaremos os itens cloro, ph e turbidez para verificar se a água que chega às casas da cidade segue os padrões da Saep", explica Chumski. "A cada R$ 4 investidos no setor de saneamento, economizam-se R$ 10 na área de saúde. Com essa convicção, vamos estreitar cada vez mais os laços com os excelentes profissionais da UNESP", conclui João Benedito Angelieri, prefeito de Potim.
 

De olho na qualidade

Grupo reúne 45 pesquisadores para estudar potabilidade da água
    Criado em 2000, o Projeto Acquaunesp tem como objetivos fornecer serviços de análise de potabilidade da água para indústrias, propriedades rurais e municípios do Estado de São Paulo, principalmente os que não contam com órgãos especializados para a execução desse trabalho. "Queremos transformar a ação individual dos laboratórios da UNESP que trabalham com qualidade de água em uma ação múltipla da Universidade, aplicando e gerando conhecimentos relacionados à água, que é o bem maior da humanidade", diz um dos coordenadores do projeto, Luiz Augusto do Amaral, da FCAV, câmpus de Jaboticabal.
    O Acquaunesp envolve aproximadamente 45 pesquisadores de 17 laboratórios da UNESP, dos câmpus de Araraquara, Botucatu, Guaratinguetá, Ilha Solteira, Jaboticabal, Presidente Prudente, Rio Claro e São José do Rio Preto. As ações do grupo estão voltadas para análises biológicas, toxicológicas e físico-químicas da água. "Nosso esforço é para oferecer água da melhor qualidade para o consumo humano", conta o engenheiro químico Láercio Caetano, da Faculdade de Engenharia, câmpus de Ilha Solteira, o outro coordenador do projeto.
    Entre as ações futuras do Projeto Acquaunesp estão também a análise de efluentes, a orientação quanto à preservação e controle da qualidade de água e a organização de cursos sobre gestão da qualidade de água. "Estabeleceremos convênios com secretarias municipais ou estaduais, onde poderemos avaliar a água de consumo e o potencial poluidor dos efluentes", conclui Amaral. "Poderemos, então, concentrar as ações hoje diluídas por vários laboratórios da UNESP", conclui Amaral.
 

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Página atualizada em 28.08.2001. Criação: Alexsandro Cardoso Lima; Assistente: Priscila B. A. Andreghetto;
Assessoria de Comunicação e Imprensa; Universidade Estadual Paulista - UNESP.