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Especial

Um salto no escuro
País mergulha na pior crise energética
de sua história

Por Oscar D'Ambrosio

Imagine a seguinte situação: em meio a uma violenta turbulência,
jogado de um lado para outro, um avião perde uma de suas turbinas
para as chamas. O piloto precisa, então, tomar duas decisões. Primeiro, claro, escolher a manobra certa para pousar a aeronave em segurança.
Depois, se houver um depois, avaliar com rigor por que o avião quase
caiu, colocando em risco a vida de seus tripulantes e passageiros.

A imagem dramática, segundo o engenheiro mecânico Guilherme Eugênio Filippo Neto, diretor da Faculdade de Engenharia (FE) da UNESP, câmpus de Guaratinguetá, ilustra com justeza esse Brasil em crise energética. Embora o País, nos anos 1990, tenha balançado diversas vezes com os ventos da globalização, enfrentando com relativo sucesso
as sucessivas crises no Sudeste Asiático, no México, na Rússia e na Argentina, nunca um risco de desastre foi tão iminente. "A falta de luz é uma ameaça temível e concreta", diz Filippo Neto, consultor na área de gerenciamento energético há mais de dez anos. "O tarifaço implantado
pelo governo, em junho, é uma tentativa de que o avião aterrisse sem vítimas. Se nada fosse feito, ele poderia entrar em vôo cego, com risco
real de cair."

Considerada terra de energia abundante e barata, devido ao grande número de rios caudalosos que cortam seu território, o Brasil enfrenta, hoje, uma premente falta de energia elétrica e, desde 1º de junho,
deparou-se com um plano de racionamento de energia nos Estados do Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, com sobretaxas de até 200% para
o consumidor que, gastando mais de 200 kWh/mês, não realize uma economia de 20% em suas contas de luz em relação a 2000. "As sobretaxas por faixa de consumo são mais uma forma de ceder às
pressões por aumento de tarifas das distribuidoras, para preservar suas receitas, do que instrumento eficaz para o racionamento de energia", diz o engenheiro elétrico Carlos Alberto Canesin, do Departamento de Engenharia Elétrica da FE da UNESP, câmpus de Ilha Solteira. "Essa forma de impor ao consumidor seu limite de gasto é uma tentativa de
evitar as interrupções coletivas, conhecidas como apagões", avalia o engenheiro mecânico Paulo Magalhães Filho, do Departamento de
Energia da FE de Guaratinguetá.

Sistema Frágil

A origem do problema energético remonta à década de 1950, quando
o Brasil optou pelas hidrelétricas, que sustentaram a política desenvolvimentista de Juscelino Kubitscheck, em detrimento de outras fontes de energia, como a heólica, a solar e a nuclear. "Em 1968 e 1988, os economistas Roberto Campos e João Paulo dos Reis Velloso, respectivamente, já alertavam sobre a fragilidade do sistema nacional de geração de energia e a necessidade de mais investimentos no setor elétrico", diz o engenheiro eletricista José Ângelo Cagnon, do Departamento de Engenharia Elétrica da FE da UNESP, câmpus
de Bauru.

Apesar de o Brasil ser o oitavo PIB mundial, ocupa somente o 82º lugar no consumo de energia elétrica por habitante, algo em torno de 2000 kWh/hab. "Cerca de 20 milhões de domicílios brasileiros não possuem acesso à energia elétrica", comenta Canesin, da FE de Ilha Solteira. "Apesar do consumo médio brasileiro ser baixo, a comunidade científica vem alertando, há décadas, sobre os riscos da falta de investimentos estruturais perante a elevação do consumo, necessário para o crescimento econômico do país". Na década passada, a crise energética veio à tona porque, de 1990 a 2001, o consumo nacional cresceu 4,1%, mas a geração só aumentou 3,3%. "Desde 1995, com a recuperação econômica do País, houve um especial crescimento da demanda por energia, mas a oferta não cresceu na mesma proporção", avalia Cagnon.

A principal causa dessa defasagem está na escolha de um modelo de geração de energia elétrica baseado quase exclusivamente em hidrelétricas, que produzem 97% da energia consumida no País. "Países como a França e os EUA mantêm uma matriz de produção de energia diversificada, com termelétricas a gás, hidrelétricas e usinas nucleares. Não se depende, assim, tanto da chuva para encher os reservatórios das hidrelétricas", comenta Cagnon, consultor de programas de gestão energética. "O Brasil investiu pouco em fontes energéticas alternativas, como gás natural, biomassa, óleo combustível, carvão e energia nuclear. Jogou seus ovos numa única cesta e está pagando o preço", completa.

Linhas de Transmissão

Integrante de uma equipe que, em 1998, fiscalizou, por solicitação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), distribuidores de energia elétrica nos Estados de Mato Grosso e Roraima, Paulo Magalhães Filho, da FE de Guaratinguetá, aponta que a melhor alternativa para o País é mesmo a diversificação de fontes de energia. "As regiões Sul e Norte têm energia de sobra. Faltam, no entanto, linhas de transmissão para
que a energia produzida em excesso numa região possa ser aproveitada
em outra", comenta. "Diversificar as fontes de energia, com a implantação de termelétricas a gás e usinas eólicas nos locais de ventos propícios são alternativas futuras, assim como a substituição de lâmpadas incandescentes por fluorescentes em residências, e de lâmpadas de vapor de mercúrio por vapor de sódio na iluminação pública."

A falta de investimento estatal e particular na geração e distribuição de energia e o fato de o crescimento do consumo de energia elétrica ser superior ao aumento da produção, aliam-se ao fato de o Brasil atravessar a fase de mais baixo índice pluviométrico dos últimos 60 anos. Desde 1997, o nível dos reservatórios brasileiros vem baixando significativamente em virtude da falta de chuvas. "Com essa estiagem prolongada, a margem de folga do sistema de geração, que já era pequena, praticamente desapareceu, detonando a crise", avalia Canesin, especialista em técnicas de eficiência energética aplicadas a fontes de alimentação e reatores eletrônicos para lâmpadas fluorescentes.

Segundo a entidade responsável pela monitoração da rede física que permite à eletricidade viajar por todo o Brasil - o Operador Nacional
do Sistema Elétrico (ONS) -, em maio de 2001, a reserva média de
água armazenada nas hidrelétricas da região Sudeste era de 30% de
sua capacidade, quase a metade de maio de 2000. "Como o consumo continuou crescendo, a defasagem, a menos que chova muito, será de
25% em junho. Se não houver redução de consumo, ela pode aumentar mais 5% em julho", afirma Filippo, presidente da Comissão de Racionalização de Energia da UNESP, que busca ajustar o consumo de energia da Universidade ao Decreto nº 3.818, da Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica, que estabelece redução de 15% do consumo
de energia em prédios públicos em relação a maio de 2000; 25%, em junho; e 35%, a partir de julho; além do Decreto Estadual nº 45.818,
de 24 de maio de 2001, com o mesmo fim de economizar energia.
Em mensagem enviada por correio eletrônico a todos os diretores das unidades da UNESP, em maio último, Filippo alertou sobre a necessidade de se tomar medidas para reduzir o consumo de energia na Universidade. Recomenda, por exemplo, desligar aparelhos de ar condicionado; apagar metade da iluminação das unidades; tirar da tomada aparelhos de refrigeração não essenciais; e manter microcomputadores pessoais desligados quando não utilizados por mais de uma hora. "Racionalizar não significa tirar tudo da tomada. Deve-se avaliar e identificar, com cuidado, os equipamentos essenciais e as fontes de desperdício, para se estabelecer um planejamento eficiente de racionalização", avalia Canesin.

Canesin salienta que a renda per capita aumenta com a elevação da oferta de energia. "Como o governo e as concessionárias privadas não investiram no setor energético, as tarifas estão aumentando e a população pagará a conta por algo de que não tem a culpa, ou seja, o racionamento", diz. "E o dinheiro arrecadado com a sobretaxa? Alguém acredita que ele será utilizado para a minimização do problema?", indaga o docente da FE de Ilha Solteira. "Ou se reduz o consumo ou o avião chamado Brasil corre o risco de cair, mergulhando nas trevas", conclui Filippo.


Fluorescente ou incandescente?

A simples troca de uma lâmpada pela
outra não resolve a questão

Desenvolvidas na década de 1940 e, desde então, em constante desenvolvimento, as lâmpadas fluorescentes surgiram como a grande alternativa para a iluminação incandescente, principalmente pela
economia energética que proporcionam. As lâmpadas fluorescentes,
em relação às incandescentes, apresentam uma maior vida útil e uma
maior eficácia luminosa, embora sejam mais caras. "Esse valor, porém,
é amortizado com resultados positivos ao longo do tempo de vida útil
das lâmpadas fluorescentes", comenta o engenheiro elétrico Carlos
Alberto Canesin, da FE da UNESP, câmpus de Ilha Solteira. "As lâmpadas fluorescentes, com reatores eletrônicos de elevado fator de potência, são a melhor opção, principalmente quando devem ficar
acesas por um longo tempo, como em escritórios", avalia. "As lâmpadas fluorescentes necessitam de reatores eletromagnéticos ou eletrônicos para funcionarem; porém, devido à ausência de normas técnicas no país, de maneira geral, os reatores eletrônicos são muito ruins quanto à qualidade da energia elétrica processada. A coisa piora quando se
trata de lâmpadas fluorescentes compactas."

A simples troca das lâmpadas incandescentes pelas fluorescentes compactas ou por fluorescentes com reatores de baixo fator de potência nem sempre é a solução para economizar energia. Por exemplo, ao trocar uma lâmpada incandescente de 60 W por uma fluorescente compacta de 30 W de péssima qualidade, com um nível de iluminação igual ou um pouco maior, a incandescente exigia 60 VA (Volt-Ampère) do sistema elétrico, enquanto a fluorescente compacta poderá exigir cerca de 70 VA. "Neste exemplo, o consumidor paga menos em sua conta mensal, medida em kWh (quilowatts por hora), mas para o sistema de energia elétrica não houve economia. Ocorreu menor tarifação, mas exigiu-se maior potência do sistema elétrico", diz Canesin.

O docente alerta para a necessidade de normas técnicas nacionais e critérios científicos e técnicos para o estabelecimento de uma política
de substituição das lâmpadas incandescentes pelas fluorescentes.
"Essa decisão, simplória, de troca de dezenas de milhões de lâmpadas incandescentes por fluorescentes compactas de baixa qualidade pode,
na verdade, acarretar outros problemas à já caótica situação do
sistema atual de energia elétrica."

Ou isto, ou o apagão

As metas oficiais para consumir
menos 20% de energia

Em 18 de maio último, o governo federal anunciou sobretaxas de até
200% para atingir a meta de redução de consumo de 20%, a partir de junho. Calculada com base no consumo médio de maio, junho e julho
de 2000, a meta vale até o final do racionamento, previsto para ovembro. "Essa forma de controle do consumo pode ser antipopular, mas funciona e pode evitar a necessidade de apagões", diz o engenheiro mecânico Guilherme Eugênio Filippo Neto, diretor da FE da UNESP, câmpus
de Guaratinguetá.

O governo havia anunciado, um pouco antes dessas determinações, as primeiras medidas para combater a crise energética, como a redução da iluminação pública em até 35%, entre outras.

Após forte pressão popular, em função das medidas anunciadas em 18
de maio, devido a infrações ao Código de Defesa do Consumidor e
ações preliminares na Justiça que julgaram a inconstitucionalidade do
plano de racionamento, em 4 de junho último, novas metas foram estabelecidas.

Até 100 kWh/mês, o consumidor estará isento da necessidade de economia e de cortes de energia. Acima dessa faixa, a redução é obrigatória e os que não aderirem ao pacote correm o risco de ter a luz cortada - por três dias a partir da segunda infração e por seis em casos
de reincidência. Contas superiores a 200 kWh/mês pagarão 50% a mais sobre o que exceder esse patamar e haverá uma segunda sobretaxa de 200% para as contas acima de 500 kW/mês, que serão aplicadas, porém, somente se o consumidor não cumprir a meta de redução estabelecida.
Em todos os casos, se o consumo cair mais de 20%, o usuário receberá um bônus em sua conta de luz de no máximo R$ 2 (consumo até 100 kWh/mês) e até R$ 1 (consumo acima de 100 kWh/mês) para cada R$ 1 que economizar além dos 20%. "Os consumidores residenciais de classe média continuam sendo penalizados, mesmo com estas alterações", avalia Carlos Alberto Canesin, da FE, câmpus de Ilha Solteira.

   
Faça a sua parte

Dicas para economizar no dia-a-dia

Diminua o tempo do banho, em chuveiros elétricos;
Elimine o uso de aquecedores;
Planeje o horário de passar roupa;

Reduza o uso do microondas e da TV;
Use o microcomputador apenas para o essencial;
deixe lâmpadas acesas apenas o estritamente necessário;
Ligue equipamentos que operam em standby à tomada
--apenas quando for usá-los.

 
 

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Página atualizada em 11.07.2001
Criação: Renata Franco
Assistência e Atualização: Cláudia Chiste
Assessoria de Comunicação e Imprensa
Universidade Estadual Paulista - Unesp