Pesquisa - Jornal da UNESP  
  MenuAnálise revela contaminação do gelo por coliformes fecais e inúmeros microrganismos patogênicos

Há mais perigos num copo de uísque on the rocks ou num suco gelado do que pode revelar a transparência de seus cubos de gelo. É o que constatou a farmacêutica Juliana Pfrimer Falcão depois de analisar 60 amostras de gelo em cubos, barras e escamas de fábricas de Araraquara, que utilizavam água clorada da rede de abastecimento ou de poços artesianos. "Encontramos, em todas as amostras, contaminação por coliformes fecais e a presença de vários microrganismos patogênicos", revela Juliana, que é pesquisadora do Departamento de Bioquímica e Microbiologia do Instituto de Biociências da UNESP, câmpus de Rio Claro.

O trabalho acabou por resultar na dissertação de mestrado Estudo microbiológico do gelo utilizado em alimentos: pesquisa de fatores de virulência em enterobactérias isoladas, apresentada em julho passado e prestes a ser publicada. De acordo com a orientadora de Juliana, a também farmacêutica Deise Pasetto Falcão, do Departamento de Ciências Biológicas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da UNESP, câmpus de Araraquara, em cujo laboratório foram feitas as análises, a pesquisa revelou ainda que os microrganismos apresentavam resistência contra vários tipos de antibióticos.

TRATAMENTO DIFICULTADO

Esta constatação é preocupante porque a resistência múltipla pode dificultar o tratamento de uma pessoa que tenha sido infectada por esses microrganismos. Como exemplo, Juliana cita o caso da bactéria Yersinia enterocolítica, que Fotoapresentou resistência a vários tipos de antibióticos, como penicilina, cefalotina, ampicilina, rifamicina e clindamicina. Já a Salmonella enteritidis, também registrada no gelo pesquisado, apresentou resistência contra a penicilina, estreptomicina, rifamicina e clindamicina. "Isso demonstra que, para combater uma infecção causada por este tipo de contaminação, a disponibilidade de antibióticos eficazes estaria mais reduzida", alerta Deise.

A presença deste tipo de contaminação representa, na opinião das pesquisadoras, um perigo potencial para a população que utiliza o gelo direta ou indiretamente nos alimentos. "Apesar de a pesquisa ter sido realizada com produtos comercializados na cidade de Araraquara, o resultado pode ser estendido para o resto do País, pois o sistema de produção (uso de água de poço artesiano e da rede de abastecimento) é comum à maioria das fábricas do Brasil", afirma Deise.

Há várias hipóteses para explicar as causas da contaminação nas amostras analisadas. "No caso do gelo da empresa que usava água da rede de abastecimento, por exemplo, a contaminação pode ter ocorrido durante a fase de manipulação ou por causa de um problema no encanamento", explica Juliana. "Já a hipótese para a causa da contaminação do gelo da fábrica que usava água de poço artesiano é de que o lençol freático estivesse contaminado." A solução para esse problema, aponta a farmacêutica, é um rígido controle microbiológico. "A produção do gelo tem que envolver os mesmos cuidados que cercam a produção e manipulação de quaisquer alimentos", pondera. "E, em casa, para a obtenção de cubos de gelo, ou usa-se água mineral ou ferve-se a água por pelo menos 15 minutos."

 
     
 

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Página atualizada em 15.01.01
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