Psiquiatria - Jornal da UNESP  
  Menu NoticiasAmbulatório da Faculdade de Medicina atende portadores de transtorno obsessivo-compulsivo, pânico e fobias

Por Oscar D'Ambrosio

Imagine uma adolescente que, perturbada por pensamentos repetitivos de que pode ter se contaminado ao tocar maçanetas ou outros objetos, passa horas, todo dia, lavando as mãos, que ficam vermelhas e irritadas. Esse é um caso típico de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), uma doença mental que, igualmente comum em mulheres e em homens, afeta de 2% a 2,5% da população, ou seja, uma entre cada 40 a 50 pessoas. "Ela não é rara, mas, por desconhecimento de muitos profissionais, subdiagnosticada", alerta a psiquiatra Albina Rodrigues Torres, responsável pelo Ambulatório de TOC, Transtorno do Pânico, Fobias e Quadros Correlatos da Faculdade de Medicina (FM) da UNESP, câmpus de Botucatu.

Docente do Departamento de Psiquiatria, ela fundou e coordena, há dez anos, o Ambulatório, que já atendeu 318 pacientes, sendo que 161 estão atualmente em tratamento. "O maior problema do TOC é que se trata de uma doença oculta e secreta. Os pacientes, em geral, acham os sintomas absurdos e ridículos. Sabem, por exemplo, que não podem contrair AIDS tocando numa maçaneta. Mesmo assim, não conseguem evitar o ritual de limpeza e sentem vergonha disso", afirma Albina (veja depoimento).

ESCRAVIDÃO

Não há, segundo a professora Albina, uma hipótese única que explique a origem do TOC. "Sabe-se, porém, que inclui fatores genéticos, neurobiológicos, psicológicos e da história da vida do paciente", afirma. O paciente sabe que seus pensamentos são ridículos, mas não consegue controlar os comportamentos compulsivos, como abrir e fechar portas ou rezar ave-marias. "Trata-se de uma escravidão auto-imposta", afirma o médico André Marcelo Dedomenico, 27 anos, residente de terceiro ano da FM, que atua no Ambulatório, realizando atendimentos, sob a supervisão da coordenadora.

Embora não se possa falar propriamente em cura do TOC, há como combater os sintomas. No Ambulatório da FM, o tratamento é realizado com anti-depressivos que agem sobre a serotonina, substância neurotransmissora encontrada no cérebro, e psicoterapia. "Há quatro anos, mantemos um grupo psicoterápico mensal para portadores de TOC e outro para transtorno de pânico", conta Albina. "Utilizamos técnicas psicodramáticas e, após alguns desses encontros semanais, é possível notar a evolução dos pacientes", conta Luciana Gomes Tarelho, médica residente de segundo ano da FM.

Atualmente com a coordenação de Albina e a atuação de três residentes, o Ambulatório também atende portadores do transtorno de pânico. São pessoas que sofrem de ataques repentinos e intensos de ansiedade.

 
  "Duram em média de 15 a 20 minutos e podem ocorrer em qualquer lugar. Causam sintomas físicos, como taquicardia, dor no peito, falta de ar, tontura e sudorese. E vêm acompanhados de medo de morrer ou de enlouquecer", explica a psiquiatra. "Surge um medo muito grande de que aquele ataque se repita. A pessoa passa então a evitar situações em que fique sozinha ou que não tenha socorro em caso de passar mal. Sua vida começa a ser dominada por esse medo."

Fobias também são tratadas no Ambulatório. "São medos irracionais de lidar com diversas situações, como altura, chuva e locais fechados, ou animais variados, como cachorro, sapo, lagartixa ou borboleta. "Nesses casos, a limitação da pessoa é, em geral, menor, pois o estímulo é mais evitável. Se alguém tem pavor de sapo e mora na cidade, por exemplo, tem menos chances de ter uma crise fóbica", avalia Albina.

O Ambulatório funciona às quartas e sextas-feiras, das 8h às 12h (informações pelo telefone (0xx14)6802-6338). Atende gratuitamente, após triagem, pacientes de baixa renda do Estado de São Paulo, Norte do Paraná e Sul do Mato Grosso. Sua atuação também tem viés didático, pois todos os casos são discutidos com os residentes da FM que nele atuam. Serve ainda como base de pesquisa clínica, devido ao grande número de pessoas com patologias semelhantes (veja quadro). "Os pacientes costumam criar vínculos com o terapeuta e colaboram muito com o tratamento", afirma a coordenadora Albina. "Isso torna nosso trabalho gratificante", completa a residente Luciana.

Depoimento

"Sentia a vontade incontida de tocar em objetos, como maçanetas e torneiras, por três vezes. Também repetia três vezes, para mim mesma, as placas de carros que via enquanto dirigia. Se não cumprisse esses rituais, achava que alguém próximo ia morrer ou sofrer algum acidente. Isso atrapalhava muito minha vida pessoal e profissional, porque estava sempre tensa, irritadiça e tinha a preocupação de não deixar que os outros percebessem esses atos repetidos e tolos. Achava que não era normal, mas tinha vergonha de contar o que eu sentia. Há 20 anos, lendo uma reportagem, descobri que era portadora de TOC. Muito tempo depois, aconselhada por uma endocrinologista, fui ao Ambulatório de TOC da FM, da UNESP, e descobri que não era a única a ter esses sintomas. Hoje, após um ano de tratamento, consegui reduzir 80% a associação entre meus rituais e a possibilidade de uma perda."
S. C., 39 anos, advogada

     
 


Síndrome de Otelo

Ciúme patológico é irracional

O ciúme é uma emoção extremamente comum, no entanto, pode assumir manifestações patológicas e se associar ao Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC). Essa é a conclusão a que chegaram a psiquiatra Albina Rodrigues Torres, a psicóloga Ana Teresa Ramos-Cerqueira, do Departamento de Neurologia e Psiquiatria da Faculdade de Medicina (FM) da UNESP, câmpus de Botucatu, e o médico Rodrigo da Silva Dias, ex-residente da (FM), em estudo realizado a partir dos casos de quatro pacientes do Serviço de Psiquiatria da faculdade publicado, em 1999, na Revista Brasileira de Psiquiatria. "Enquanto o ciúme ‘normal’ é transitório e baseado em motivos reais, o patológico é uma preocupação infundada e irracional, que pode ser a manifestação de diversos transtornos mentais", afirma Albina.

O ciúme patológico é conhecido como Síndrome de Otelo, em homenagem à peça com esse nome de William Shakespeare, escrita em 1694, em que o protagonista, conhecido como "o mouro de Veneza", se consome pelo amor desmedido por Desdêmona. Pode ser também um sintoma do TOC, ao incluir rituais de verificação, como perguntas repetitivas sobre certos acontecimentos para checar se as respostas são sempre as mesmas, e ao ser reconhecido pelo próprio paciente como algo irracional, que gera culpa. "Esses pacientes costumam ter sintomas depressivos, vergonha do que sentem e apresentam menos agressividade em relação à pessoa amada", conclui Albina.

 
     
 

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Página atualizada em 01.12.00
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