Biotecnologia - Jornal da UNESP  
  MenuNo mercado internacional desde 1996, os alimentos geneticamente recombinados começam a chegar ao Brasil. As opiniões, até aqui apaixonadas, se dividem: de um lado, ambientalistas radicalmente contra e, do outro, indústrias totalmente a favor. No centro, pedindo ponderação, os cientistas enfatizam os benefícios da engenharia genética e alertam contra os riscos do aparecimento de superbactérias e superpragas

Por Oscar D’Ambrosio

A expressão "alimentos transgênicos" ainda assusta o consumidor brasileiro, mas segundo biólogos, engenheiros agrônomos, bioquímicos e zootecnistas da UNESP, é inevitável que esses prodautos manipulados em laboratório para adquirir características especiais, como resistência a herbicidas e a pragas, ocupem as prateleiras dos supermercados de todo o Brasil nos próximos anos. "A biotecnologia oferece grandes benefícios à humanidade. Porém, como os produtos transgênicos hoje comercializados no País só têm benefícios para o produtor e para a empresa que desenvolveu a tecnologia, o consumidor comum se pergunta para que servem esses novos produtos", diz o bioquímico Jesus Aparecido Ferro, do Departamento de Tecnologia da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV) da UNESP, câmpus de Jaboticabal.

Para Ferro, chefe de um dos laboratórios da UNESP que participou do projeto Genoma da Xylella fastidiosa, que foi capa da conceituada revista Nature, e dos Genomas Xanthonomas e Humano do Câncer, o tema alimentos transgênicos é geralmente discutido com muita paixão e pouca informação. "Os ambientalistas são radicalmente contra e as indústrias, totalmente a favor. Cabe aos cientistas ter uma visão ponderada da questão", afirma.

A primeira geração de plantas transgênicas, disponível no mercado internacional desde 1996, aumenta a produção, traz economia para o agricultor – que passa a gastar menos com herbicidas – e permite às indústrias que investiram bilhões de dólares recuperar parte desse investimento, mas não oferece melhores alimentos ao consumidor. "A soja, o milho e o algodão que estão no mercado não são mais nutritivos que seus similares orgânicos", avalia o engenheiro agrônomo Ciro Rosolem, do Departamento de ArteProdução Vegetal da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da UNESP, câmpus de Botucatu. "Uma segunda geração, com genes que aumentam o valor nutricional dos vegetais e combatem doenças infecciosas, está sendo preparada e estará disponível no mercado entre 2002 e 2004", completa Ferro.

O RISCO DA SUPERPRAGA

Pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) já estão trabalhando nessa segunda geração de transgênicos. Procuram aumentar a qualidade nutricional de plantas como soja, feijão, mamão, banana, batata e algodão, ou transformá-las em fábricas produtoras de substâncias de interesse farmacêutico. "Estamos desenvolvendo plantas de soja capazes de produzir o hormônio do crescimento humano, usado no tratamento de crianças com esse tipo de problema, e insulina", diz o coordenador do Laboratório de Transferência de Genes da Embrapa, Elíbio Rech. "O objetivo é baratear os custos de isolamento e purificação de substâncias úteis para a saúde humana."

A zootecnista Janete Desidério Sena, do Departamento de Biologia Aplicada à Agropecuária, da FCAV, explica a resistência que muitos têm contra os transgênicos. "Se as grandes multinacionais explicassem que, num futuro próximo, com uma segunda geração de produtos, uma criança poderá comer uma banana transgênica e ficar automaticamente vacinada contra a poliomielite, ninguém seria contrário à idéia", afirma a docente, que trabalha com a bactéria Bacillus thuringiensis, que produz uma toxina mortal para os insetos, mas inofensiva aos humanos. "Presente no milho transgênico Bt, por ser resistente a pragas, ela leva a uma diminuição do uso de inseticidas na lavoura."

Há, no entanto, o risco de que surja uma superpraga. "Alguns espécimes de lagarta podem resistir e passar seus genes para a frente. Se isso acontecer, em pouco tempo todas as linhagens da lagarta que atacam o milho tradicional seriam resistentes à toxina presente no milho Bt", explica o biólogo Manoel Victor Franco Lemos, do Departamento de Biologia Aplicada à Agropecuária da FCAV, que participou do Genoma Xylella e coordena um laboratório de seqüenciamento do Genoma da Cana-de-Açúcar. "Ele então não serviria mais", conclui Ferro. Para evitar isso, o governo dos EUA recomenda que os agricultores façam também plantações de milho não-transgênico. "Assim, os insetos das duas variedades cruzam entre si, reduzindo a chance de surgirem linhagens resistentes", explica o bioquímico da FCAV.

NOVA ERA

Marcos do início de uma nova era na agricultura, a partir de meados da década de 1990, os transgênicos prometem ser o equivalente, no século XXI, à Revolução Verde dos anos 1960, que, baseada no desenvolvimento e na acelerada disseminação de variedades altamente produtivas de milho, arroz e trigo, em novos fertilizantes e em inovadoras técnicas de irrigação, duplicou a produção mundial de grãos nos últimos 40 anos. "Por volta de 1970, com a intervenção dos físicos na biologia, nasce a biologia molecular, que permite a realização fácil e rápida de combinações genéticas antes consideradas impossíveis", explica Lemos.

O biólogo lembra que cruzamentos genéticos entre espécies semelhantes sempre ocorreram na natureza, levando naturalmente ao aprimoramento de cada organismo. "O melhoramento genético apressa e melhora a eficiência desses processos. A tecnologia molecular, porém, vai mais além, pois mistura DNAs de naturezas totalmente diferentes, rearranjando materiais genéticos para que sejam mais produtivos", diz.

Postas à venda em 1996, as primeiras versões da soja transgênica incorporam um gene capaz de sobreviver ao herbicida Roundup. "Isso leva à economia com herbicidas e a um aumento da produção. O que é necessário ponderar é um eventual risco para a saúde humana", afirma Lemos. "Além disso, como a agricultura é fundamental para nossa economia, a regulamentação dos transgênicos deve ser rigorosa, para não prejudicar o meio ambiente."

Para Rosolem, da FCAV, os produtos que resultam da engenharia genética não são uma ameaça aos consumidores. "Os transgênicos são até mais seguros que os alimentos obtidos pelo melhoramento convencional, pois passam por testes mais rigorosos e sua produção está em ascensão em todo o mundo", afirma. "Quanto ao meio ambiente, eles podem proporcionar uma significativa redução da carga de poluentes lançados no planeta."

Ainda há dúvidas, no entanto, se um grão adaptado para resistir a herbicidas não irá desencadear o desenvolvimento, no organismo humano, de proteínas desconhecidas, capazes de provocar reações alérgicas. "É possível que algumas plantas, quando perturbadas pela recombinação genética não natural, que consideram agressora, produzam proteínas chamadas fitoalexinas, que podem ser tóxicas ao homem e gerar manifestações alérgicas em alguns Transgenicosconsumidores", afirma Lemos. "Assim como há pessoas que têm alergia a frutos do mar, uma minoria poderá ter uma reação semelhante a algum alimento transgênico", esclarece Ferro.

SUPERBACTÉRIA PATOGÊNICA

Há, porém, a possibilidade de problemas mais sérios do que uma simples alergia. Na tecnologia da criação de um transgênico, quando da montagem do vetor que leva o novo gene a uma planta, há um passo que envolve um gene com resistência a antibióticos. Se ele cair no solo ou na água, pode se espalhar pela natureza e se transferir para outras bactérias, gerando uma superbactéria patogênica, capaz de atacar animais. "Como teria uma grande resistência, não seria mais combatida pelos antibióticos conhecidos, gerando uma superdoença", explica a zootecnista Janete. Por isso, vêm sendo utilizados outros marcadores. Um deles, originário de uma medusa do mar, marca as proteínas em que ocorreu modificação transgênica com um verde fluorescente. "São vetores ecologicamente mais corretos. Transferem material genético sem haver o risco de disseminação da resistência a antibióticos."

Há ainda o risco, teórico, de que as bactérias do intestino humano absorvam esse gene resistente a antibióticos, tornando-se superbactérias. Qualquer doença, portanto, se tornaria um grande problema. "Essa possibilidade é muito remota, porque, quando o DNA do alimento transgênico chega ao intestino, já está degradado, sem condições de se integrar às bactérias lá residentes", avalia Janete.

Se monitorar um animal num estábulo é relativamente simples, o mesmo não acontece com uma plantação. "Como é impossível ficar 24 horas olhando uma plantação, a polinização por insetos e o equilíbrio do ecossistema não são facilmente controláveis", aponta Lemos. "Pela sua própria complexidade, a manipulação genética exige grandes precauções, como cuidados para que o pólen das plantas modificadas não fecunde outras espécies silvestres e crie monstrengos vegetais", alerta.

Para o bioquímico Ferro e o biólogo Lemos, é necessário deixar as paixões de lado e analisar cada caso, isoladamente. "Sou contra, por exemplo, trazer algodão ou arroz transgênico para o Brasil. Como espécies silvestres dessas plantas já existem no País, é possível que o gene escape e cruze com as variedades nativas, gerando novas espécies desconhecidas", pondera Ferro. "Isso não aconteceria com a soja, que não tem variedades silvestres por aqui."

 
  VACA LOUCA

Por todos esses problemas potenciais, a União Européia, que havia autorizado a importação e o processamento de soja transgênica em 1996, decidiu, em maio de 1998, introduzir regras para rotular alguns produtos que contenham soja ou milho geneticamente alterados e suspendeu a liberação de novos produtos com essas características até 2002. "Os países europeus temem uma catástrofe e não aceitam o uso de hormônios e antibióticos em ração animal", conta Ferro. "Fenômenos como a doença cerebral da vaca louca, nome popular da encefalopatia espongiforme bovina, transmitida ao gado alimentado com carcaças de ovelhas contaminadas, deixaram a opinião pública européia muito alarmada", acrescenta Janete. Para Lemos, o Brasil poderia se aproveitar dessa postura. "Poderíamos reservar áreas para o plantio de espécies vegetais melhoradas pelos métodos clássicos e vender para a Europa", comenta. "Seria um interessante nicho de mercado. Eles poderiam comprar nossa soja ou milho sem a preocupação de realizar testes para ver se contêm elementos transgênicos."

Há hoje, segundo The International Service for Acquisition of Agri-Biotech Applications, organização internacional ligada à indústria de alimentos, cerca de 40 milhões de hectares semeados com transgênicos, o que corresponde a uma área pouco maior que o Estado de Mato Grosso do Sul, sendo que quase 29 milhões se localizam nos EUA, país em que as culturas transgênicas estão aprovadas, sem restrições, desde 1995. "O resultado é que 60% dos alimentos processados nos EUA, como grãos, batatas, tomates, mamões e melões, são alterados geneticamente", constata Lemos. "A sociedade americana aceita melhor a idéia dos transgênicos do que a européia, mas já está mais cautelosa do que antes", argumenta Ferro.

Na América do Sul, a Argentina optou por um caminho oposto ao do Brasil. Aprovou as novidades biotecnológicas sem pestanejar e, atualmente, 90% da soja e 20% do milho lá produzidos são transgênicos, o que leva os agricultores locais a calcularem uma economia de mais de US$ 30 por hectare com soja modificada. A safra é 80% geneticamente modificada, contra 55% dos EUA e 10% do Canadá. "Os argentinos mergulharam nos transgênicos de cabeça e já plantaram mais de cem espécies geneticamente modificadas", contabiliza Lemos.

Os grandes laboratórios internacionais argumentam que os alimentos transgênicos de segunda geração poderão acabar com a fome no mundo. Para Ferro, esse problema é uma questão política. "O mundo já produz alimento suficiente. A grande questão é a distribuição", argumenta. "Com os transgênicos, haverá uma diminuição do custo de produção. Mais pessoas, portanto, terão acesso a alimento mais barato. Eles não salvarão o mundo da fome, mas podem permitir que mais pessoas tenham condições de comprar comida", acrescenta Rosolem.

Para Ferro, é necessário explorar ao máximo a capacidade tecnológica de modificar alimentos. "Com a biologia molecular, a evolução que demorava anos e era impedida pela incompatibilidade de espécies, é acelerada. Isso é maravilhoso, mas é preciso ter cuidado com o ambiente", ressalva. "A idéia da transgênese é ótima. O que preocupa é a forma como vem sendo feita", concorda Lemos.

Segundo a zootecnista Janete, não há dúvida de que os alimentos transgênicos vieram para ficar. "Por isso, torna-se essencial desenvolver uma posição crítica sobre o assunto", acredita. "É preciso prestar atenção em nossa biodiversidade e no potencial dos cientistas brasileiros para criar, com nossa tecnologia, transgênicos que atendam a nossa sociedade carente", conclui.

Cardápio alterado

• Cup Noodles (macarrão instantâneo sabor galinha) – Idec e Greenpeace

• Bac’Os (chips sabor bacon) – Idec

• Cereal Shake Diet – Idec

• Creme de Milho Verde Knorr – Idec

• ProSobee – Idec

• Salsichas Swift Tipo Viena – Idec

• Supra Soy Integral – Idec

• Nestogeno com Soja – Idec

• Soy Milke – Idec

• Batata Frita Pringles Original – Greenpeace

• Bac’On Pieces – Greenpeace

     
 

A Justiça, de olho nos frankenfood

O que diz a lei sobre produtos com componentes transgênicos

No Brasil, a produção e a comercialização dos transgênicos é regulamentada pela Lei nº 8.974, de 5/01/1995. Conhecida como "Lei de Biossegurança", ela estabelece as normas para o uso das técnicas de engenharia genética "na construção, cultivo, manipulação, transporte, comercialização, consumo, liberação e descarte" de organismos geneticamente modificados (OGMs). Entre suas determinações, está a criação da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), responsável, de acordo com o Decreto nº 1.752/1995, pelas providências que envolvem a legalidade das atividades com transgênicos no País. "Essa comissão tem 18 membros, com representantes de ministérios, especialistas em biotecnologia e representantes de empresas de biotecnologia, órgãos de proteção à saúde do trabalhador e dos consumidores", explica o advogado Paulo Affonso Leme Machado, professor de Direito Ambiental do Instituto de Biociências da UNESP, câmpus de Rio Claro.

A Lei de Biossegurança classifica como crime a liberação ou descarte de OGMs no ambiente, a manipulação genética de células germinais humanas, a intervenção em material genético humano ou animal vivo e a produção, armazenamento ou manipulação de embriões humanos destinados a servir como material biológico disponível. Além disso, por enquanto, a Justiça brasileira só libera o plantio de transgênicos para pesquisas e testes, como ocorre na Embrapa. Quanto ao consumo, cada Estado da Federação, como garante o artigo 24 da Constituição Federal, tem o direito de estabelecer certos princípios, como a obrigatoriedade da rotulagem. "É o que fez o Estado de São Paulo, que, por meio da Lei nº 10.467, de 20/12/99, definiu que as embalagens de transgênicos devem conter a inscrição ‘alimento geneticamente modificado", diz Machado, presidente da Sociedade Brasileira de Direitos do Meio Ambiente. "Dessa forma, pode-se fazer uma escolha consciente."

O físico Roberto Kishinami, diretor executivo da Organização Não-Governamental (ONG) Greenpeace no Brasil, lembra que, em junho último, o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) testou, em um laboratório suíço, 31 produtos para verificar a presença de componentes transgênicos em alimentos vendidos no Brasil, enquanto o próprio Greenpeace avaliou 11 produtos. "O Idec encontrou nove produtos com a presença de milho ou soja transgênica. Nós encontramos três (veja quadro ao lado). "Eles são conhecidos por frankenfood, em alusão ao monstro Frankenstein, e devem ser rotulados para que o consumidor saiba o que está levando para casa", afirma.

 
     
  Comida barata, para 800 milhões de famintos

Meta, nos próximos 15 anos, é reduzir pela metade a miséria do planeta

A fome preocupa a Organização das Nações Unidas, ONU. Por isso, um de seus braços, a Food and Agriculture Organization (FAO), tem como proposta reduzir os 800 milhões de famintos do planeta a metade, nos próximos 15 anos. "Para atingir essa meta, é preciso produzir comida barata, e, aparentemente, os transgênicos podem reduzir o custo de produção, viabilizando uma melhor e maior oferta de comida", diz o engenheiro agrônomo Roberto Rodrigues, professor do Departamento de Economia Rural da FCAV da UNESP, câmpus de Jaboticabal. "As populações pobres precisam comer e não lhes importa se a comida é transgênica ou não. Como ainda não há provas científicas de danos causados pelos trangênicos aos consumidores ou ao meio ambiente, a escolha, atualmente, é um privilégio dos países ricos."

Presidente da Associação Brasileira de Agribusiness, Rodrigues afirma que os dados disponíveis indicam que os produtos transgênicos têm um custo de produção até 20% menor que o dos produtos tradicionais. "Portanto, os agricultores americanos e argentinos, que produzem transgênicos, têm uma vantagem sobre os demais, tendo mais lucro, que podem reinvestir na atividade", afirma. "Em suma, são mais competitivos, exportam mais e seus países melhoram o saldo comercial."

 
     
 

Página Principal | Opinião | Meio Ambiente | Agenda | Ranking |
Nutrição | Biotecnologia | Saúde | Geral | Eleições |
Geografia | Língua Portuguesa | Livros | Expediente |

Início
 



Página atualizada em 07.11.00
Criação e Programação: Renata Franco
Assessoria de Comunicação e Imprensa
Universidade Estadual Paulista - Unesp