Psicologia - Jornal da UNESP  
  MenuAcidentes domésticos matam um bebê por dia, no Estado de São Paulo

Por Evanildo da Silveira

Quedas, queimaduras, envenenamentos e sufocações são perigos que rondam os bebês constantemente. Toda mãe que tem criança pequena sabe que qualquer descuido pode resultar em acidente. As conseqüências podem se resumir a um simples susto, mas podem também provocar seqüelas permanentes e até a morte. As estatísticas comprovam o perigo. Relatórios da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) mostram que, num período de oito anos, entre 1985 e 1993, ocorreram 2.916 mortes de crianças com menos de um ano por acidente no Estado de São Paulo – uma criança por dia. Esses números, no entanto, podem ser muito maiores, já que os pais costumam mascarar as notificações que envolvem acidentes.

Preocupada com o fato e acreditando que os psicólogos possam ter uma atuação importante na prevenção de acidentes infantis, a psicóloga Sandra Regina Gimeniz-Pascoal, do Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Filosofia e Ciências da UNESP, câmpus de Marília, tratou de investigar o assunto, que acabou por resultar em sua tese de doutorado Prevenção de quedas acidentais de bebês: uma intervenção do psicólogo com mães usuárias do setor de Pediatria de um Centro de Saúde. "Acidentes estão entre a primeira e a quarta causa de morte de crianças de 0 a 4 anos no Brasil", explica. "Quando não matam, podem mutilar ou deixar seqüelas neurológicas irreversíveis. Como não há vacina contra isso, tem-se que tentar preveni-los, mudando o comportamento das mães."

O descuido e a negligência de algumas mães ficam evidentes quando se verifica que, dentre os acidentes infantis mais freqüentes, estão as quedas – principalmente da cama ou do trocador de fraldas –, responsáveis pela maioria dos traumatismos crânio-encefálicos em crianças. Essa Fotodesatenção das mães já tinha sido observada por Sandra numa pesquisa anterior, no Setor de Pediatria de um Centro de Saúde Pública da Capital (que ela prefere não identificar), que resultou na sua dissertação de mestrado. "Percebi que é comum elas se afastarem de seus bebês, deixando-os em situação de perigo", diz a pesquisadora. "Por isso, decidi focalizar meu segundo estudo nas quedas acidentais e tentar criar procedimentos de intervenção para ensinar as mães a evitá-las."

CARTAZES E FOTOS

Para tanto, a psicóloga analisou o comportamento de 58 mães e o de seus respectivos bebês, usuários do mesmo Centro de Saúde no qual ela já havia realizado seu primeiro trabalho. Dando plantões diários no Setor de Pediatria, Sandra entrevistou mães e registrou, em vídeo, os cuidados com os filhos durante a pré-consulta, que envolve a troca de roupas dos bebês. Feito isso, dividiu-as em quatro grupos, dois de controle e dois de intervenção que, por sua vez, foram divididos em dois subgrupos: perigo (mães que deixavam a criança em perigo de queda) e normal.

Em seguida, a pesquisadora começou a fase de intervenção, com um trabalho de conscientização das mães. "Orientei os grupos com muito diálogo e o auxílio de cartazes com fotos", explica Sandra. "Logo no início do contato, por exemplo, perguntei se elas achavam que poderia ocorrer algum acidente com o filho delas." As respostas colhidas, de acordo com a pesquisadora, mostraram que as mães mais cuidadosas são as que mais acreditam que acidentes sejam possíveis. Enquanto 60% das mães do Grupo Intervenção Normal (cuidadosas) admitiram que poderiam acontecer acidentes com seus bebês, apenas 35,7% das do Grupo Intervenção Perigo manifestaram esse temor.

Também foi possível observar outra diferença de percepção entre as mães cuidadosas e as desatentas: "Quando as cuidadosas recebiam o cartaz com fotos de outras mães cuidando de seus filhos, tendiam a focalizar mais o bebê", conta Sandra. "As negligentes, ao contrário, se detinham na mãe. Isso pode sugerir que elas estão mais preocupadas com elas mesmas, ou com sua tarefa, do que com a segurança das crianças." Sandra elaborou, então, folhetos que resumiam informações para a prevenção de acidentes, como deixar os pertences dos bebês sempre à mão na hora da troca de fraldas e levar a criança sempre que houver necessidade de deixar o local (veja quadro abaixo).

As mães foram receptivas às recomendações da pesquisadora e mudaram radicalmente seu comportamento. "As do Grupo Perigo passaram a ser mais cuidadosas e mantiveram esse padrão ao longo de todo o período em que foram acompanhadas". Depois de analisar este e outros dados, Sandra chegou à conclusão de que a adoção de medidas que previnam acidentes infantis é viável – e deve ser incentivada. "Um programa como esse independe de recursos ou de tempo", assegura. "Minha pesquisa foi pensada para aplicação e se mostrou possível. A intervenção é rápida – leva cerca de 10 minutos –, não há necessidade de se retirar a mãe da sala de consulta, não atrapalha o andamento do atendimento e pode evitar muitas mortes prematuras."

 
     
 


Os dez mandamentos do bebê seguro

1 – Jamais deixe o bebê sozinho, desprotegido, por menor que seja o período.

2 – Um trocador ideal deve ter a altura mínima necessária para que você possa manejar o bebê de forma confortável e segura. Sua base deve amparar a maior parte do corpo da criança. É indispensável também uma proteção nas laterais e, se possível, um cinto de segurança, que possa ser fixado no bebê durante a troca.

3 – Evite camas com colchas de tecido escorregadio e não posicione o bebê próximo das beiradas.

4 – Reúna antecipadamente tudo o que será usado na troca do bebê e deixe ao alcance das mãos. Assim, você não precisará afastar-se da criança.

5 – Se você tiver que se afastar, leve a criança com você. Se isso não for possível, peça a um adulto que cuide dela ou coloque-a no berço, no cercadinho ou mesmo no chão, devidamente forrado com uma coberta e longe de móveis.

6 – Encoste o cadeirão de alimentação do bebê em uma parede. Ele deve ser baixo, estável e ter cinto de proteção.

7 – Sempre que se deslocar com um bebê no colo, verifique se o ambiente está bem iluminado, se as portas de vidro estão devidamente sinalizadas, se as escadas possuem corrimão e proteção antiderrapante, se os tapetes não têm pontas erguidas e se o piso não está molhado ou escorregadio.

8 – Berço e cercadinho devem ser altos o suficiente para que o bebê não consiga pular e ter boa base de sustentação, para que não tombem com o peso da criança.

9 – Evite disposição de móveis que permita formar "escadinhas", sobretudo quando a criança começar a engatinhar. Mantenha as janelas protegidas com grades ou telas.

10 – Durante o banho, segure firmemente o bebê, envolvendo-o pelas axilas, e use material antiderrapante no fundo da banheira (uma fralda de pano, por exemplo). Nunca deixe a criança sozinha na banheira, por qualquer razão ou período de tempo, mesmo que ela já tenha boa sustentação para ficar sentada.

 
     
 

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Página atualizada em 14.08.00
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Assessoria de Comunicação e Imprensa
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