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Novas tecnologias
balançam o poder das megaindústrias fonográficasPor Evanildo da Silveira
Há
algo de novo no reino das megaindústrias fonográficas.
As gigantes transnacionais, que movimentam bilhões,
criam ídolos e impõem as músicas que milhões de
pessoas vão ouvir mundo afora, estão com seu poderio em
cheque. A conclusão é da socióloga Márcia Tosta Dias,
do Centro de Documentação e Memória (Cedem) da UNESP,
com sede em São Paulo, em sua dissertação de mestrado Sobre
a mundialização da indústria fonográfica
Brasil anos 70/90.
"As novas tecnologias para a produção de discos
musicais, que barateiam os custos de gravação,
incentivando as produções independentes e a pirataria,
e a internet, que permite a transmissão de música por
e-mail, colocaram a indústria diante de um grande
desafio", diz a pesquisadora. "Ela vai ter que
descobrir uma nova maneira de manter o domínio da
produção e comercialização de discos."
Durante a pesquisa, que será lançada em forma de
livro pela Boitempo Editorial e a Fapesp, no final deste
mês, com o título Os donos da voz, a socióloga
constatou grandes mudanças na indústria fonográfica
mundial. "Até os anos 70, todo o processo de
produção de discos ocorria dentro da indústria",
conta. "A partir dos anos 90, começou a se
fragmentar, por causa da globalização, e várias de
suas etapas foram terceirizadas. Hoje, as grandes
gravadoras não têm estúdios, porque o negócio delas
é vender discos e não fazê-los."
De acordo com Márcia, a venda, anunciada em dezembro
último, da gravadora PolyGram, que pertencia à Philips,
para o grupo Seagram/Universal, por 10,4 bilhões de
dólares, é emblemática. "O negócio pode ser
interpretado como decisão estratégica das grandes
companhias de retirarem-se do cenário", diz.
"Incertas dos rumos do mercado, decidiram passar o
bastão para os concorrentes em troca de quantias
astronômicas."
Historicamente, sabemos, essa indústria atuava nas
duas pontas do processo: produzia o disco e o aparelho
para tocá-lo, isto é, o software e o hardware.
Era o caso da Philips, que foi responsável por grandes
inovações tecnológicas, como o disco de vinil
estéreo, o disco inquebrável, o compacto simples de
33,1/2 rpm e o compact-disc, bem como a necessária
transformação nos respectivos aparelhos leitores.
DILEMA
Para a socióloga, a quebra dessa ligação entre hardware
e software é a novidade na fusão
Universal/PolyGram. "Ela encerra um dilema vivido
pela própria Philips, ao mesmo tempo que apresenta um
elemento importante para a compreensão do
contexto", explica. "A produção de hardware da
empresa caminhava num sentido que a levaria a trabalhar
contra a própria indústria fonográfica. Para continuar
competindo no mercado, deveria incumbir-se do
desenvolvimento e fabricação de equipamentos de
gravação, de decodificação de mensagens musicais
digitais e de outros."
De acordo com Márcia, a universalização das
técnicas de produção de discos e a sofisticação da
falsificação atingem de frente a mina de ouro das
companhias, que sempre tiveram por objetivo o máximo de
lucro possível, oferecendo um produto extremamente caro
ao consumidor. "Questões éticas à parte, o que
importa é o preço", conclui a pesquisadora.
"Para o consumidor de sucessos, que é quem compra o
CD pirata, a lógica é simples: é melhor pagar R$ 5,00
do que R$ 20,00."
Na luta contra a pirataria, paradoxalmente, a
indústria, em vez de baixar o preço dos discos, levanta
a bandeira dos direitos autorais. É bom lembrar, no
entanto, que a pirataria lesa mais os direitos das
gravadoras que os do artista, que recebe apenas cerca de
13,3 % do valor total do disco.
Nesse contexto, é exemplar a atuação de Lobão,
que, no ano passado, furou o cerco imposto pelas
gravadoras e partiu para um esquema alternativo: lançou
o CD A vida é doce, montou estratégia de
distribuição em bancas de revistas e, voilá,
está perto de vender 100 mil discos. Detalhe: a
operação de Lobão é absolutamente legal.
Outra brecha no monopólio das indústrias pode surgir
da tendência à extinção dos próprios discos, devido
à internet. "O comércio de discos virtuais está
perturbando consideravelmente o cenário", explica
Márcia. "Programas de rede, como o MP3, permitem a
divulgação de músicas por e-mails a preços baixos,
quando não gratuitamente."
Por tudo isso, a socióloga acredita que a situação
está escapando ao controle das grandes companhias
fonográficas. Na verdade, elas perceberam, nunca foi
tão fácil fazer um disco. "A grande barreira
sempre esteve armada na esfera da difusão, isto é, da
distribuição, veiculação e marketing dos produtos,
que só as grandes companhias podem realizar",
conclui Márcia.
"Num futuro próximo, no entanto, a
popularização das novas tecnologias, se não reproduzir
novamente o esquema de uso restrito, fechando mais uma
vez o cerco, pode fazer as gigantes balançarem e perder
pelo menos parte de seu poder."
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