UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
"JÚLIO DE MESQUITA FILHO"
 
     
 
Debate acadêmico :::
 

Favela de Pedra

Marcio Rogério Ferreira de Souza *

O homem se faz perceber no mundo a partir de suas particularidades resultantes de sua consciência como um indivíduo, uma célula componente da comunidade. Sua individualidade se revela através de suas características construídas durante a sua vivencia em sociedade e esta se ajusta a um processo de troca entre os indivíduos (células), e o produto da troca é o fruto de suas peculiaridades. Quanto mais o indivíduo é capaz de extroverter sua identidade, mais ele tem a oferecer na rede de troca.

Esta consciência de identidade está presente na forma como o homem se percebe e se coloca na sociedade, seja no seu jeito de falar, de vestir, de se comportar, de afirmar suas opiniões, de se relacionar com o outro e os outros. Entretanto, esta consciência de individualidade também se apresenta nas "marcas" deixadas como vestígios de sua presença (estive ou estou aqui). A consciência de identidade individual culmina na necessidade de afirmação de sua presença como um ser diferente e único.

Por outro lado, a massificação da sociedade aconteceu no mesmo ritmo em que os valores individuais foram destruídos - a construção de uma sociedade de iguais, a reunião de cópias de um modelo apresentado. Neste caso, a relação de troca entre os indivíduos torna-se desigual, visto que os mesmos não podem oferecer um produto da individualidade e sim uma resposta esperada ao modelo proposto.

O Lar, ou morada, é o local onde se vive a individualidade na forma de privacidade. Este local que, quase sempre significa para o acolhido o abrigo, o seu espaço seguro e onde tem liberdade para deixar sua "marca", é onde o indivíduo se sente único. Esta expressão de identidade, materializada na imagem do lar, tem um importante papel de aproximar o indivíduo de si mesmo e não deixá-lo totalmente a mercê da alienação provocada pela massificação.


Como é a sua casa? Onde você mora? Se estas perguntas forem feitas a um grupo de pessoas as respostas serão tão diferentes quanto o número delas. Um poderia dizer que sua casa tem um portão velho de madeira e que faz um bom tempo que não pinta; O outro que mora em um sobrado estilo colonial com um coqueiro na frente; O outro em uma casa pequena sem revestimento.
O fulano mora naquela casa sem muro com uma carroça na frente! Para citar mais um exemplo.

Entretanto, a morada também pode estar numa condição de massificada e assim o indivíduo perde parte da referência de sua individualidade. Neste caso, a casa do portão velho de madeira não existe, da mesma forma o sobrado em estilo colonial. O que existe é a mesma descrição de casa para todos. Fica difícil perceber o fulano pela carroça que tem em frente a sua casa, os fulanos moram em casas iguais, não se percebe o fulano pela sua morada característica.

Quando fomos pela primeira vez, em 2003, em Cidade Tiradentes, região metropolitana de São Paulo, depois de termos assinado um contrato com a Prefeitura da Cidade para ministrarmos aulas de Arte em escolas deste bairro, tivemos a sensação de estar numa imensa favela de pedra. A cada esquina que virávamos era como se estivéssemos repetindo o mesmo percurso da esquina anterior, com construções totalmente funcionais, onde nos pareceu não ter existido preocupações com o bem-estar quando foram projetadas.

No entanto, o que mais nos chamou a atenção foi a massificação arquitetônica, e a questão que surgiu é paradoxal: A mesma identidade para uma comunidade de diferentes indivíduos? Concluímos que é quase impossível para a grande parte dos moradores deste bairro afirmar sua identidade tendo como referência sua casa. Afinal, são centenas de prédios iguais, onde as casas são iguais (Não estamos considerando aqui a parte interna).

Mesmo sabendo que não poderíamos obter a resposta "minha casa tem um portão velho de madeira", perguntamos a alguns alunos sobre sua casa e percebemos nas respostas que estes procuram uma referência para responder, no entanto, estas referências permanecem coletivas: "Moro num prédio que fica em frente ao ponto da lotação". E esta resposta pode ser a de todos os moradores daquele prédio.

A escola onde demos aulas por um maior período de tempo foi a E.M.E.F. José Augusto César Salgado. Durante o tempo que permanecemos, mais precisamente entre 2003 e 2004, notamos que, através da Arte, alguns conseguem expor sua individualidade, não precisamos de muito tempo para notar a vocação que esta comunidade tem para revelar artistas.

Artistas como o cineasta Tio Pac, o músico Endrigo, cartunistas, atores, dançarinos, para todos os suportes surgem talentos. Entidades e associações são organizadas e este leque de ações públicas é uma reação da comunidade para minimizar o efeito da massificação. É a luta pela sobrevivência e pela sobrevivência da identidade que forma o fio que os une.

Internamente, a aparência dos lares são realizações dos indivíduos, o espaço é pequeno e, cotidianamente, as roupas são penduradas nas janelas para secarem. Quem observa de fora, vê uma imagem fantástica, é como se cada família levantasse suas bandeiras e marcasse seu território. É o espetáculo dos estandartes coloridos sobre a parede do barraco de pedra desbotado e descascando.

Em cada roupa na janela, vê-se uma identidade, as diferenças afloram. O indivíduo deixa seu bairro para trabalhar ou estudar durante o dia e suspeita que sua morada é a única que tem uma camiseta vermelha com listras amarela na janela, mesmo que só por este dia, sente que não precisa do portão velho de madeira.

Márcio Rogério Ferreira de Souza é graduando do curso Licenciatura em Educação Artística e Bacharelado em Artes Plásticas da Universidade Braz Cubas em Mogi das Cruzes; é Artista Intermídia e atualmente ministra Oficinas de Iniciação as Artes Visuais na Casa de Cultura Cora Coralina, em Santo Amaro

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