UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
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José de Ribamar Ferreira Gullar: 80 anos de vida e poesia

Odil José de Oliveira Filho*

O poema é uma coisa

que não tem nada dentro,

a não ser o ressoar

de uma imprecisa voz

que não quer se apagar

– essa voz somos nós.

(Ferreira Gullar. Não-coisa. Poemas recentes)

Neste ano, comemoram-se os oitenta anos de José de Ribamar Ferreira, nascido, em São Luís do Maranhão, no dia 10 de setembro de 1930. Como é comum nessas efemérides, não se festeja os anos do homem, do quarto dos onze filhos do comerciante Newton Ferreira e de sua mulher Alzira Ribeiro Goulart, moradores da região da Camboa, próxima ao mar maranhense. Homenageia-se o poeta Ferreira Gullar, cujos versos nos vêm iluminando sentidos nos sem-sentidos da vida (ou vice-versa).

No caso de Gullar, porém, é difícil separar o poeta do homem, até porque, já aos 13 anos, o menino, cujo apelido a essa altura era “periquito”, por força de uma crise amorosa e pelos estímulos recebidos por uma nota alta obtida em uma redação escolar, entrara a escrever e a ler poemas, vindo a publicar, às expensas da mãe, um primeiro livro, aos 19 anos de idade, intitulado, sintomaticamente, Um pouco acima do chão (1949). Nessa altura, já colaborava no suplemento literário do Diário de São Luís. Dois anos mais tarde, obtendo o primeiro lugar num concurso promovido pelo Jornal de Letras, cuja comissão julgadora era composta, inclusive, pelo poeta Manuel Bandeira, decide transferir-se para o Rio de Janeiro. Ali, consegue um posto de revisor na revista O Cruzeiro e, em 1954, lança o livro A luta corporal, cuja repercussão atrairá a aproximação dos poetas paulistas Augusto e Haroldo de Campos e de Décio Pignatari, que, por volta de 1956, estavam a lançar as bases do movimento concretista ao qual Gullar então se perfilou.

Com A luta corporal é que verdadeiramente nasce o poeta Gullar, da luta corporal com a palavra poética, sempre desafiadora e fugidia, desnudando-a dos modelos prontos com que a tinha vestido nos poemas ingênuos do livro da juventude – fruto, em grande parte, das leituras dos nossos românticos e parnasianos do século XIX. Ao despir-se dessa herança canônica, Gullar assumia, em verdade, a complexa lição do poeta moderno, que é, enfim, a de lutar com (e contra) a palavra, para tentar retirar das coisas o sentido que a palavra ocultava. Leitor, agora, de nossos poetas modernos, Gullar passa a ser o poeta brasileiro que mais radicalmente assimilou a herança “maldita” dos poetas simbolistas do final do século XIX.

A luta corporal é, assim, uma inquieta reflexão sobre a própria linguagem poética, uma busca desesperada pela expressão concreta, que leva, ao final do livro (no poema Roçzeiral) à exploração tão-somente sonora das palavras, ao silêncio e a um último poema intitulado justamente de O Inferno:

Porque eu sou só o clarão desta carnificina, o halo deste espetáculo da ideia. Sou a força contra essa imobilidade e o fogo obscuro minando com sua língua a fonte dessa força. Estamos no reino da palavra, e tudo que aqui sopra é verbo, e uma solidão irremissível... (O.C., p.52)

A radicalidade dessa experiência artística foi possivelmente o motivo da aproximação com o grupo dos poetas concretos, cuja proposta, de raiz fortemente racionalista, procurava superar a (insuperável, diga-se) distância entre a palavra e o mundo, pela abstração do mundo. É por isso que, pouco tempo depois, de sua adesão ao Concretismo, ainda no final da década de 50, Gullar rompe com o movimento, lança, com outros artistas, as bases do chamado Neoconcretismo e, no início dos anos 60, envolve-se com o Centro Popular de Cultura da UNE, abandonando a arte de vanguarda para assumir uma posição artística de explícito engajamento político e social. Com o golpe militar de 64 e o fim dos CPCs, funda com outros escritores o grupo Opinião, e inicia, em 1966, a produção de peças em que são discutidos temas relacionados à realidade histórica e social brasileira, até que, em 1971, perseguido pela polícia política, abandona o País e passa a viver um exílio que durará perto de seis anos.

Quando, em 1975, com Gullar residindo em Buenos Aires, é editado no Brasil Dentro da noite veloz, percebe-se que o poeta havia superado o grande impasse em que se metera (ou para o qual a vida o empurrara) entre os compromissos da arte e os da política. Comprova-o o outro livro saído no mesmo ano, Poema Sujo, por cuja contundência crítica e estética seria saudado à época, por críticos e escritores, como um dos grandes poetas da Literatura Brasileira. Nesse sentido, à luta mortal e solitária com as palavras e as coisas de A luta corporal (e de Vil metal), renascerá um poeta cujo corpo agora é um

corpo

nordestino

mais que isso

maranhense

mais que isso

sanluisense

mais que isso

ferreirense

newtonense

alzirense (O.C., p.212)

Um corpo sujo de vida, um corpo sujo de História e de histórias, de gentes, de outros, de vozes: o Poema Sujo revelaria que a voz poética é, na verdade, um coro de muitas vozes esplendendo no corpo das palavras e é assim, pelo corpo da linguagem, que Ferreira Gullar já pode considerar-se por inteiro como José de Ribamar Ferreira Gullar. Na vertigem do dia (1980), Barulhos (1987) e Muitas vozes (1999) serão os livros que trarão os impasses que o poeta enfrentará no espaço que se abre e que, para o verdadeiro poeta que é, nunca é tarefa cumprida, porque, no caso, esse espaço é indecifrável como é a própria vida. Veja-se, nesse sentido, o que está dito no poema Inventário, de seu último livro publicado:

Vivo a pré-história de mim

Por pouco pouco

eu era eu

José de Ribamar Ferreira Gullar

Não deu

O Gullar que bastasse

não nasceu (O.C., p.402)

Rejubilemo-nos, portanto, pelos oitenta anos de vida que o poeta, o menino e o homem, José de Ribamar Ferreira Gullar viveu, cantou e transformou em pura poesia – e nos ofertou, como um presente vivo, para todo o sempre.

Odil José de Oliveira Filho é professor do Departamento de Literatura da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, câmpus de Assis.


Publicado em 18/2/2010

 
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