A universidade pública goza de prestígio no país, principalmente pela produção de ciência e tecnologia, na avaliação do professor Marco Aurélio Nogueira. No entanto, essa instituição não consegue satisfazer à necessidade de aumento de vagas em seus cursos, nem tem respostas ágeis para inovações como o ensino a distância, de acordo com o livre-docente pela Faculdade de Ciências e Letras (FCL), câmpus de Araraquara. Bacharel em Ciências Políticas e Sociais pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, doutor em Ciência Política pela USP, pós-doutor pela Universidade de Roma, Itália, Nogueira é professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da FCL e do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (que reúne Unesp, PUC-SP e Unicamp), além de colunista do jornal O Estado de S. Paulo. (Entrevista a Oscar D’Ambrosio)
Jornal Unesp: Como o senhor vê a universidade pública hoje?
Marco Aurélio Nogueira: Ela está num momento de transição, porque, de certo modo, extrai hoje os resultados do processo de sua consolidação. A universidade pública é uma realidade insofismável na vida nacional, está se mostrando mais produtiva e vem conseguindo aparecer como um sistema produtor de ciência e tecnologia, absorvendo as expectativas da juventude em relação à formação para o mundo. Ao mesmo tempo, ainda não é capaz de dar um atendimento categórico à grande demanda de vagas que existe na sociedade brasileira. Essa característica dificulta a obtenção por parte da universidade pública de índices mais expressivos de legitimidade e reconhecimento por parte da sociedade.
JU: Como se daria essa capacidade de absorção de novos alunos?
Nogueira: A impressão que tenho é que a universidade pública é muito lenta na oferta de novos produtos para a sociedade. Ela demora, por exemplo, para deliberar a respeito de uma reforma curricular que possa tornar um curso mais rápido de ser freqüentado e tem ainda dificuldade para assimilar o ensino a distância. Ela tem que ser um pouco mais ágil no aumento de vagas, na diversificação dos cursos e, quem sabe, a partir de uma discussão cuidadosa, na reformulação do tempo de duração de alguns cursos. Esses problemas não são da universidade pública brasileira, mas da universidade em geral. Estão relacionados com a alta demanda por ensino superior e com a sensação de que tudo deve ser feito numa velocidade maior.
JU: Qual é a visão que a sociedade tem da universidade pública?
Nogueira: O problema é mais de divulgação do que de produtividade. Ela faz ações relevantes, mas não está conseguindo mostrar para a sociedade plenamente a importância daquilo que faz. Ao mesmo tempo que realiza pesquisas, ela está envolvida numa espiral de divulgação de custos excessivamente altos e movimentos grevistas sucessivos. Não questiono a legitimidade destes, mas, na última década, não houve praticamente um ano sem greve, paralisação ou invasão de reitoria. Isso cria junto à opinião pública uma mensagem um pouco imprecisa do que é de fato a universidade.
JU: A sociedade mudou muito nas últimas décadas e a universidade não acompanhou internamente essas transformações?
Nogueira: Um ponto fundamental é fazer a universidade entrar em sintonia ativa com uma sociedade que está mudando muito depressa. A questão, porém, não é só de mudança no plano tecnológico. Ela se dá também no plano da mentalidade. Aceitar ou não o ensino a distância, por exemplo, não é um problema de incorporar ou não a tecnologia ou a cultura informatizada, mas de pensar a universidade do futuro a partir de um novo pacto interno, que envolva professores, alunos e funcionários dos diversos níveis das carreiras administrativas. Isso significa caminhar para uma nova maneira de pensar os conselhos universitários e os processos de decisão. Isso é mais importante do que uma absorção de tecnologia ou a formação de uma mentalidade mais tecnológica na universidade, ainda que isso também seja necessário.
<< VOLTAR |