Carla Giani Martelli
Crise é uma palavra que pode abarcar vários sentidos, entre eles tensão, conflito; um estado de dúvidas e incertezas. A nossa é uma época que vive a radicalização da crise, ou seja, radicalização do estado de dúvidas e incertezas. Decretamos o fim da tradição. As instituições vivem em busca de novos referenciais de conduta: Família, Igreja, Escola, Estado são pressionados a dar respostas às novas configurações e demandas de uma sociedade cada vez mais globalizada, fragmentada, complexa e plural. [...] A universidade não está fora deste processo. Ao contrário, ela reflete os conflitos e as tensões por que passa a sociedade. Daí ser possível falar em crise. Três eixos de tensão são possíveis para analisá-la: universidade-conhecimento, universidade-organização, universidade-Estado.
O primeiro eixo quer questionar o papel da universidade e o próprio significado de conhecimento na sociedade de hoje. Como se sabe, as universidades nasceram com a missão de cultivar e transmitir o saber humano acumulado. Foram criadas para o saber como um fim em si mesmo, o saber desinteressado. Com a revolução industrial e a consolidação do capitalismo surgiram exigências de especializações e técnicas que se ajustassem à nova divisão social do trabalho. Essas exigências se radicalizam com a revolução da informação das últimas décadas, o que resultou num aprofundamento da relação entre universidade e mercado, afetando a finalidade mesma da universidade. [...]
[...] A tensão que se estabelece entre a vocação para a qual a universidade foi criada e as necessidades históricas que lhe exigem novos formatos tem sido o motor do debate, neste momento radicalmente instaurado.
Também se pode pensar a crise da universidade pública dentro de um quadro maior de crise das organizações. As organizações públicas têm sido invadidas por processo análogo ao que vem ocorrendo no mundo das organizações privadas. Novas propostas gerenciais as têm pressionado a se tornarem mais produtivas, mais aptas para concorrerem no mercado e captar recursos, mais eficientes na prestação de seus serviços. [...] Todo esse processo coloca em risco a própria noção de público, já que anula a diferença entre instituição pública e organização empresarial. E isso tem consequências deletérias: instaura-se um quadro que alimenta um individualismo exacerbado em detrimento de uma cultura do coletivo, do bem comum. É a própria crise do Estado que se vê aí refletida.
O Estado tem vivido uma crise de legitimidade tanto de suas instituições como de seus representantes, pois, confrontada com fluxos globais de capital, de produção, de comércio, de gestão, de informação, a ideia de Estado-nação, criada no início da Modernidade, foi perdendo boa parte de seu poder. Soma-se a isso todo o debate acerca da reforma gerencial da administração pública e dos limites do Estado intervencionista. A universidade pública sofre as consequências da redefinição do papel do Estado num contexto histórico cada vez mais adverso ao público e favorável ao privado. Quadro que se agrava em países periféricos como o Brasil.
Enquanto os países do centro do capitalismo se deparavam com os dilemas provocados pela globalização neoliberal dos anos 1980 e com a crise do modelo de Estado de Bem-Estar Social, o Brasil vivia dois momentos distintos e confluentes: por um lado, vivia o processo de redemocratização, de reconstrução da legitimidade e credibilidade do Estado e de suas instituições, de enriquecimento da cidadania que, pela via dos direitos sociais, significou a busca pela universalização do sistema de proteção. Por outro lado, vivia os impasses do desmonte de um modelo de Estado de proteção, o que significava responder ao ajuste financeiro e fiscal e aos consequentes cortes de “gastos” nas políticas sociais. [...] O ensino superior público, já bastante reduzido, é convulsionado por essa onda de desmontes.
O Brasil tem velhas e novas questões a resolver. As velhas dizem respeito à estrutura de desigualdade econômica e social que construímos ao longo de nossa história, que deságua na educação, produzindo mais desigualdade e estratificação; às questões do desenvolvimento elitista e tardio da educação superior e da precocidade do processo de privatização do setor. As novas dizem respeito ao aumento da exclusão social num mercado globalizado cada vez mais exigente e competitivo e, então, à intensificação da pressão por educação continuada; à transnacionalização da universidade, que permite aumento de alunos estrangeiros nos nossos cursos; ao oferecimento maior, pelo Estado, de ensino médio, o que empurra uma demanda muito maior e mais diversificada às portas da universidade. Soma-se a tudo isso o momento atual, marcado pela ressignificação da missão da universidade e do conhecimento e pelas novas exigências da gestão pública, dada a reconfiguração do Estado. [...]
Respostas podem ser dadas de várias maneiras. O desafio está em projetar políticas que atendam às velhas e novas demandas sem colocar em risco o papel singular da universidade pública de formação plena, desinteressada e cidadã. Só essa formação é capaz de produzir reflexões que levem à construção de alternativas ao jogo imposto. E parece ser esse o único caminho para enfrentar a cultura de depredação da coisa pública, a desigualdade, a exclusão e o atraso que ainda assolam nosso país.
Carla Giani Martelli é professora do Departamento de Antropologia, Política e Filosofia da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, câmpus de Araraquara.
A íntegra deste artigo está no “Debate acadêmico” do Portal Unesp, no endereçohttp://www.unesp.br/aci/debate/150610-carlagianimartelli.php
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